Como o Altruísmo Prejudica a Saúde Mental e a Felicidade – Parte II

por Edwin A. Locke Ph.D. e Ellen Kenner, Ph.D.

O que é egoísmo racional

Egoísmo, literalmente, significa preocupação com os seus próprios interesses (Rand, 1964); o termo em si não especifica quais são os seus interesses ou como descobri-los. Mas por que afinal você deveria estar preocupado com os seus próprios interesses? A resposta básica é: pelo objetivo de viver. Enquanto ser humano, você é mortal e deixar de fazer as escolhas corretas é uma ameaça à sua sobrevivência e bem-estar. Você precisa fazer as escolhas corretas para manter-se vivo e progredindo fisicamente (por exemplo, alimentar-se, abrigar-se, vestir-se, procurar assistência médica, trabalhar para ganhar a vida) – e, psicologicamente, para conquistar autoestima e felicidade. “Felicidade”, escreve Ayn Rand, “é o estado de vida bem-sucedido”. (Rand, 1992, p. 932):

“Felicidade é aquele estado de consciência que surge da conquista dos nossos valores. Uma moralidade que ousa mandá-lo encontrar felicidade na renúncia da sua felicidade – a valorizar a ausência dos seus valores – é uma insolente negação da moralidade”. (Idem)

Enquanto humanos, nós não possuímos qualquer código moral inato. Nós observamos muitas pessoas que escolhem ações que prejudicam a si mesmas porque elas não sabem fazer escolhas racionais. Nós observamos isso em diversas situações tais como ingerir alimentos não saudáveis, abusar do álcool e das drogas, jogar imprudentemente, permitir cônjuges abusivos, tolerar amigos e parentes que causam infortúnios, mal administrar as finanças, não buscar educação, aceitar empregos e carreiras que nos tornam infelizes, sofrer exploração financeira, etc.

Enquanto seres possuidores de livre arbítrio (Peikoff, 1991) nós constantemente enfrentamos alternativas e temos a capacidade de fazer escolhas – mais do que isso, nós precisamos fazer escolhas:

  • Amy deve dedicar seu tempo para fazer a cirurgia nas costas – ou não?
  • Ela deve deixar o marido saber que ele precisa compartilhar as responsabilidades da casa – ou apenas suportar e sorrir?
  • Ela deve educadamente pedir ao seu sogro para arrumar outra maneira de ir aos seus jogos de poker – ou continuar o levando?
  • Ele deve estabelecer limites ao seu irmão – ou cuidar de forma chateada dos filhos dele todo final de semana?
  • Ela deve perseguir uma carreira que ela ame – ou permanecer em um emprego maçante?

Observe que o egoísmo e o altruísmo dão respostas opostas a essas questões e têm efeito opostos sobre o seu sentimento de ego, autoestima e felicidade. Se Amy seguir o altruísmo, quando ela começar a pensar sobre o seu próprio bem-estar e desejos, ela se sentirá imoral. Ela lida com isso encobrindo (reprimindo) tais pensamentos egoístas, dizendo a si mesma: “Não pense nisso”. Ela deve manter tais pensamentos fora da atenção consciente. Amy se encontra em uma situação onde a vitória não é possível: para ser moral, ela sente que deve se sacrificar – mas isso a faz se sentir amargurada, deprimida e infeliz. Para ser feliz, ela deve pensar no que ela quer – mas isso violaria o seu código moral e a faria sentir que está fazendo algo errado. Essa é a armadilha psicológica estabelecida pelo altruísmo. Ele contradiz o próprio propósito da moralidade. O altruísmo, ao invés de promover a vida, é contrário à vida. Ele insulta a razão.

Rand (1964; consulte também Peikoff, 1991) mostrou que a identificação e a busca dos nossos próprios interesses requerem o exercício da razão, não revelações místicas, nem caprichos, nem obediência cega, mas o pensamento fundamentado na realidade. Sentimentos não analisados, emoções, não são fontes de conhecimento, e agir unicamente baseado em sentimentos simplesmente levará à autodestruição. Sua mente é o seu meio básico de sobrevivência. Assim, a racionalidade, de acordo com Rand (1964), é a maior virtude. Ser racional requer que você não retire sua mente de foco e dê saltos de fé,  nem que tome o rumo “fácil” de seguir os seus sentimentos, mas que se orgulhe em ter uma mente pensante e ativa. Você precisa entender e ver o sentido do mundo a fim de viver e apreciar a vida. Em The Objectivist Ethics (A Ética Objetivista), Rand (1964, p.26) elabora o seguinte sobre a virtude da racionalidade:

“Ela significa um comprometimento ao princípio de que todas as convicções, valores, objetivos, desejos e ações devem ser baseados, derivados, escolhidos e validados a partir de um processo de pensamento – um processo de pensamento tão preciso e escrupuloso, dirigido por uma aplicação tão implacavelmente estrita da lógica, quanto a máxima capacidade individual  o permite.”

Usar sua mente de forma racional requer esforço – e tal esforço lhe traz uma sensação de competência e autoestima.

Outras virtudes implicadas pela racionalidade são:

  • Honestidade (a recusa de falsear a realidade).
  • Integridade (agir de acordo com o próprio julgamento racional).
  • Independência (pensar por si mesmo e trabalhar para o sustento da própria vida).
  • Produtividade (trabalhar para produzir, diretamente ou indiretamente, os bens que a vida requer).
  • Justiça (racionalidade aplicada aos outros homens – julgá-los e agir para com eles de acordo com o seus caracteres e ações).
  • Orgulho (esforçar-se para atingir a perfeição moral).

(Ver Peikoff, 1991, e Smith, 2006, para uma discussão detalhada dessas virtudes.)

Agir de acordo com essas virtudes nos ajuda a prosperar. (Nota: estamos preocupados com a vida nesta terra, não com a “vida” em outra dimensão – não existem outras dimensões). Para dar um exemplo, desonestidade envolve a negação do próprio julgamento racional – ver a realidade como ela não é em vez de como ela é. A tentativa de Amy de “mostrar um rosto feliz” para sua família e amigos, quando ela está sofrendo terrivelmente por dentro, não fará o sofrimento desaparecer.  Falsear a realidade não funciona – a realidade sempre vence no final. Uma pessoa não se beneficiará – e em última instância se prejudicará ao negar problemas reais, incluindo problemas psicológicos.  Contudo, ao reconhecer tais problemas, a pessoa está em posição de melhorar.

O egoísmo racional sustenta que o indivíduo é a unidade de valor, um fim em si mesmo, não um meio para outros fins (Rand, 1992). De acordo com esse código, Amy teria o direito moral de perseguir uma carreira da sua escolha – e de ganhar o dinheiro necessário para eventualmente comprar a sua “casa com belos jardins floridos”.

Politicamente, o conceito de direitos individuais (liberdade de coerção do governo) sobre o qual o governo americano foi fundado, é fundamentado no egoísmo (o direito à busca da felicidade). Sob o código do autossacrifício, o altruísmo, não surgiria um conceito tal como o de direito, porque não haveria direitos individuais, apenas deveres. (Não pode haver algo como direitos do “grupo”, pois grupos não são entidades, apenas conjuntos de indivíduos).

Ao falhar em distinguir atitudes com características essencialmente diferentes, observe o que altruísmo oferece: você pode ser “moral”, um bom altruísta, ou você pode ser uma pessoa imoral, egoísta. Assim, pela falha do altruísmo de não distinguir características essencialmente diferentes, o termo “egoísta” reúne sob uma mesma categoria:

  • Hedonistas amorais, criminosos, e diversas pessoas corruptas (que, na verdade, são autodestrutivas, não autovalorizadoras).
  • Pessoas morais, racionais, que buscam sua própria felicidade sem prejudicar alguém (que são indivíduos racionalmente egoístas).

Os últimos não podem ser considerados em conjunto com os primeiros. Essa falsa conceituação deve ser rejeitada completamente.

Uma pessoa racionalmente egoísta pode valorizar ou se importar com outras pessoas?

Como os egoístas racionais veriam as outras pessoas? Primeiro, eles respeitariam seus direitos. Ninguém poderia reivindicar a proteção do princípio dos direitos individuais a menos que aplicado igualmente a todos. Segundo, eles lidariam com os outros através da troca voluntária, cedendo valor por valor (ver Smith, 2006, par detalhes). Isso é óbvio no caso de transações comerciais, mas também se aplica ao reino do amor romântico.

Vamos examinar o amor romântico mais atentamente. Amar outra pessoa significa que você a valoriza de forma egoísta, que o bem estar e a felicidade dessa pessoa são de extrema importância para você. Um “amor abnegado” é uma contradição em termos. Significaria que você é indiferente ou não aprecia a pessoa que você ama. Mas nós ouvimos que o verdadeiro amor é altruísta. Imagine pôr o altruísmo em prática na sua própria vida – casando com alguém de forma altruísta, isto é, de forma autossacrificial, por piedade ou dever. Tal amor abnegado pode ser qualquer coisa menos amor.

Aqui segue uma “carta de amor” escrita por um homem decente influenciado pelo altruísmo, que casou com a sua esposa, não pela alegria que ela traz à sua vida, mas, por piedade e dever:

Querida Noreen,

Eu casei com você, não porque de forma egoísta eu te amava ou te admirava ou te respeitava, mas porque você precisava de mim e disse que não poderia ser feliz sem mim. Eu não admiro seu caráter, pois você nem sempre é honesta. Eu não admiro sua independência, pois você depende de mim para tudo e não pode nem mesmo tomar a menor decisão por si mesma. Você não tem o desejo de crescer e nenhuma ambição; você fica contente em sentar e assistir novelas que debilitam a mente. Eu percebo que você nunca diz a alguém o que realmente sente, mas o que você acha que a pessoa quer ouvir. Você não parece ter um ego de verdade. Você sempre parece nervosa e deprimida e, contudo, não deseja buscar ajuda profissional. Embora eu não obtenha qualquer prazer egoísta em ser casado com você, eu me sentiria muito culpado se lhe abandonasse. Eu permaneço com você e sirvo às suas necessidades por piedade e dever.

Sinceramente,

David

Você pode ver a óbvia contradição aí. O amor altruísta não é de forma alguma amor. Você não pode amar alguém que nada significa para você. O amor romântico não é abnegado, mas sim, egoísta. Embora o verdadeiro amor não seja altruísta, tampouco é narcisista – um relacionamento “somente eu”, de mão única. Narcisistas não podem amar realmente; eles usam os outros para aliviar seu próprio sentido de inadequação. O amor verdadeiro é uma troca mutuamente benéfica na qual a moeda não é o dinheiro, mas o ego da outra pessoa, de corpo e alma.

Você pode perguntar: Mas não é possível sentir prazer pessoal em ajudar os outros? Obviamente sim, se a pessoa (tal como seu filho ou cônjuge) fosse alguém que você ama de forma egoísta e que estivesse, digamos, recuperando-se de uma enfermidade. Você poderia da mesma maneira ajudar um amigo. Você pode querer fazer muitas coisas pelas pessoas a quem você ama (por exemplo, levar flores para a sua esposa, ajudar um filho adulto a se mudar para um novo apartamento, fazer refeições para um amigo que perdeu um ente querido) e tais auxílios são racionais e genuínos quando vêm de respeito e valorização mútua, não do dever e da culpa. Em tais casos, você experimenta prazer em ajudar, não ressentimento. Mesmo com estranhos, às vezes é adequado e prazeroso ajudar, porque você ama sua vida e valoriza pessoas potencialmente boas. Você tem uma perspectiva geral de que, a não ser por evidências ao contrário, um completo desconhecido é uma pessoa potencialmente boa e possivelmente interessante. Assim, enquanto pessoa racional, você pode gentilmente e generosamente ajudar um casal idoso a pôr sua bagagem no comportamento superior de um avião ou deixar que um casal, sem poder seguir caminho e congelando em uma tempestade de neve, entre na sua casa para se aquecer e telefonar pedindo auxílio.

É adequado ajudar alguém quando não sai ao custo dos seus maiores valores, quando a pessoa que você ajuda está em uma dificuldade da qual ela não tem culpa (por exemplo, quando não é um parente alcoólatra e pedinte), quando a dificuldade é temporária, quando a pessoa é apropriadamente grata – e quando não é um risco para a sua vida (algo que deve ser reservado para aqueles a quem você ama de tal forma que não gostaria de viver sem eles).

Uma nota sobre seus filhos em relação ao egoísmo: Você não deve escolher ter filhos a menos que você os queira de maneira egoísta, isto é, pelo prazer do prospecto de formar crianças adoráveis que se tornarão adultos moralmente virtuosos, independentes, prósperos e felizes. Pelo fato de que crianças nascem dependentes, se você escolheu a responsabilidade de tê-las, então a integridade exige que você cumpra sua responsabilidade, mesmo que isso possa lhe causar fadiga ou estresse às vezes. Você também terá que abandonar alguns valores (por exemplo, tempo livre, gastar dinheiro com outras coisas), mas isso porque você valoriza seus filhos mais do que esses outros valores. (A permuta de valores está envolvida em toda ação humana. Permutas não são sacrifícios a menos que você abandone um valor maior por um menor pelo dever). Similarmente, você se casa com a pessoa amada porque você valoriza essa pessoa acima de todas as outras; assim, em sua hierarquia de pessoas por valor, seu cônjuge apropriadamente está em primeiro lugar. Só se torna um sacrifício se você tem filhos ou se casa por dever ou conformismo.

Mas e quanto a ajudar alguém a quem você não valoriza ou efetivamente não gosta? Obrigar a si mesmo a passar seu tempo ajudando aqueles que você não gosta é um dever, um sacrifício. É contra o ego. E quanto às instituições de caridade? Você pode contribuir com a caridade de forma não sacrifical, se você pode se permitir a doar e se é uma organização cujo trabalho ou causa você valoriza e respeita. Mas, sob o altruísmo, não funcionaria dessa maneira. O ato de dar não seria baseado em valores egoístas, mas no dever – num sacrifício não escolhido em proveito dos outros.

[Em breve a parte III]

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Publicado originalmente em Handbook of Managerial Behavior and Occupational Health, editado por A. G. Antoniou, C. L. Cooper, G. P. Chrousos, C. D. Spielberger, & M. W. Eysenck, (Edward Elgar, Northampton, MA, 2009). A publicação deste artigo no Objetivista.com foi autorizada expressamente pelos autores.

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Drº Edwin A. Locke é Professor Emérito de Motivação e Liderança da Universidade de Maryland, College Park. É internacionalmente conhecido pela Teoria do Estabelecimento de Metas que ajudou a desenvolver. Ele praticou psicoterapia em tempo parcial durante quinze anos. http://www.edwinlocke.com/

Drª Ellen Kenner é psicóloga clínica particular e lecionou os cursos Introdução à Psicologia, Transtornos Psicológicos e Teorias da Personalidade em nível universitário. Ela apresenta o programa de rádio “The Rational Basis of Happiness” (A Base Racional da Felicidade) – http://drkenner.com.

Eles são autores de The Selfish Path to Romance – How To Love With Passion and Reason (A Trilha Egoísta Para O Romance – Como Amar Com Paixão e Emoção) inspirado nas ideias de Ayn Rand.

Referências

Binswanger, H. (1991). Volition as cognitive self-regulation. Organizational behavior and human decision processes, 50: 154-178.

Locke, E. A. (2006-7) The educational, psychological and philosophical assault on selfesteem. The Objective Standard, 1, (4), 65-82.

Peikoff, L. (1982) The ominous parallels. New York: Stein & Day.

Peikoff, L. (1991) Objectivism: The philosophy of Ayn Rand. New York: Dutton.

Rand, A. (1961) For the new intellectual. New York: Signet.

Rand, A. (1964) The virtue of selfishness. New York: Signet.

Rand A. (1970) Causality vs. duty, The Objectivist. July, 1970 (reimpresso em The Intellectual Activist, New York, 1986, pp. 865-870).

Rand, A. (1990) Introduction to Objectivist epistemology, 2ª edição. New York: NAL books.

Rand. A. (1992) Atlas shrugged. New York: Signet.

Smith, T. (2006) Ayn Rand’s normative ethics: The virtuous egoist. Cambridge, UK: Oxford.

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Como o Altruísmo Prejudica a Saúde Mental e a Felicidade – Parte I

por Edwin A. Locke Ph.D. e Ellen Kenner, Ph.D.

A maioria das pessoas aceita como um axioma que o altruísmo é moralmente bom e o egoísmo é moralmente mau. O nosso objetivo é mostrar que, não apenas isso é o oposto da realidade, mas que o altruísmo prejudica a saúde mental e a felicidade. Vamos começar com Amy, mãe de três filhos, que tem entrado e saído da terapia sucessivamente há anos.

Amy foi diagnosticada com depressão e tentou diversas medicações sem sucesso. Ela trabalha parte do tempo como garçonete enquanto seus filhos estão na escola primária. Ela dirige para o sogro e o leva para suas consultas médicas, para encontros de idosos e para seus jogos de poker. O seu irmão deixa os filhos na casa dela nos fins de semana, assim, todas as crianças podem “brincar juntas”. O marido de Amy se considera “tradicional” – ela faz tudo para ele. Amy range os dentes e aceita que esse é o modo que a vida é – cheia de encargos.

Amy sente dor crônica nas costas devido à hérnia de disco há anos. É doloroso para ela servir às mesas no trabalho, subir escadas, carregar roupas para lavar e ser ativa com as crianças. Seu médico insistiu para que ela fizesse cirurgia, mas ela sente que não tem o direito de se ausentar do trabalho ou das suas responsabilidades domésticas. Ela se sente culpada apenas em considerar isso, um sentimento que ela não consegue submeter a questionamentos. A autoestima de Amy está ligada ao sentimento de que ela é uma boa esposa, uma boa mãe e uma boa nora – ainda que essa “boa” estimativa venha ao custo da sua própria saúde e felicidade. Ela se vê cada vez mais amargurada e depressiva – sendo ríspida com os seus filhos, seu marido e seu sogro – as mesmas pessoas que ela queria amar. E ela sente ansiedade crônica e tem duvidas sobre si mesma. O médico encorajou Amy e seu marido a procurarem um psicólogo. Mas o seu marido se recusa a ir, então ela vai sozinha. A terapia vai a lugar nenhum. O seu terapeuta a encoraja a fazer o que Amy “sente que é certo”. Nem o terapeuta, nem Amy, questionam por quais padrões julga-se algo certo ou errado, bom ou ruim, saudável ou nocivo. “Certo”, para Amy, é colocar os outros acima de si mesma – aceitando assim o código moral do altruísmo. E o terapeuta sente que ele não pode tomar qualquer posição; ele tem que ser “moralmente neutro”. Imagine ir a um médico que não possui padrões racionais e científicos de saúde física e que sente que ser “ético” é permanecer “neutro” e deixar que a opinião do paciente a respeito da “cura adequada” seja a sua solução. Nenhuma pessoa racional iria querer um cirurgião ou cardiologista que se comportasse de tal maneira. Por que deveria ser diferente no campo da saúde mental?

Sua saúde mental e felicidade não são obtidas pelo sacrifício do seu pensamento independente nem desistindo da busca do que você mais valoriza na vida. Vamos ver o porquê.

O que é altruísmo?

Literalmente, altruísmo significa outro-ismo – a doutrina de que você deve viver para os outros, o que significa que você deve sacrificar seu tempo, sua energia e sua felicidade para as outras pessoas, assim como Amy faz. Esses outros – os beneficiários dos sacrifícios – durante toda a história, tomaram inúmeras formas: a tribo, a antiga cidade-estado, Deus, a raça superior, o proletariado, o estado, a sociedade, o “meio ambiente” ou a família. Qual é o elemento em comum? Para ser moral, você deve trabalhar para o benefício de alguém ou de algum coletivo ou de alguma entidade diferente de você mesmo. Amy vive para os outros – ela não alcançou a autoestima e a felicidade; em vez disso, ela se sente vazia, sobrecarregada, deprimida e sofre de dor física crônica.

Certamente, Amy, às vezes, faz algumas coisas para si mesma – isso é inevitável (por exemplo, ela compra roupas para se aquecer no inverno, toma os medicamentos prescritos, faz três refeições por dia, incluindo alimentos que ela pessoalmente gosta de comer). Ninguém pode viver consistentemente como um altruísta – pessoas que nunca fizessem algo que beneficiassem a si mesmas morreriam. Até o ato de respirar é valorizar a si mesmo.

A não ser pela total autoimolação, o altruísmo deve ser praticado inconsistentemente – você sacrifica a maior parte do seu tempo, mas, de forma culpada, permite o seu autointeresse quando possível. Qual é a consequência de trair esse código moral? À medida que você leva a moralidade a sério, é uma culpa inexorável. Você se sentirá hipócrita: você se sacrifica pelos outros frequentemente, mas em seguida você age de forma egoísta. Você não é capaz de ser um completo mártir, isto é, você não poder viver completamente de acordo com os seus próprios padrões morais do que é o bem.

Quais argumentos são dados para validar o altruísmo?

Por que Amy deve viver para os outros e não para si mesma? Quais provas são oferecidas de que o altruísmo é o correto padrão moral? Uma prova racional dessa doutrina jamais foi dada. Ao invés de provas, desde os seus primeiros dias, diziam à Amy que isso era uma questão de fé. Ela aprendeu sobre os mártires religiosos (por exemplo, Jesus) e lhe disseram que esses heróis do sacrifício eram os ideais morais a serem emulados. “Todas as pessoas de bem têm fé”, diziam-lhe. Ela ouviu algumas histórias, por exemplo, de como Deus pediu a Abraão pra sacrificar (isto é, assassinar) seu filho favorito. Ela se lembra de se abalar com isso mas então concluir que a fé exigia que ela acreditasse que aquilo era bom, ou que era a maneira de Deus nos “testar”. Deus, diziam- lhe, é a fonte da moralidade, e isso é conhecido através da revelação.

Mas o que é fé? Fé é a aceitação de ideias baseadas em sentimentos, na ausência de fatos ou ao contrário dos fatos. Nenhuma evidência é necessária e nenhuma lógica é aplicada. Fé e revelações são realmente táticas para que você seja intimidado a sacrificar, não o seu primeiro filho, mas a sua própria mente e o seu próprio bem-estar.

À Amy foi dada uma segunda “razão” para abraçar o altruísmo: a afirmação de que a alternativa, o egoísmo, é mal de forma autoevidente. Quando criança, Amy não começou a vida como uma pessoa abnegada. Ao invés disso, ela tinha o sonho de ser atriz, de ganhar o suficiente para ter uma “casa com belos jardins” e viajar o mundo. Quando ela compartilhava esses sonhos com sua mãe ela repetidamente ouvia que aquilo era “egoísta”. Ela se recorda dos sermões de seus pais: “Se todos fizerem aquilo que querem fazer, que tipo de mundo seria este? As pessoas fariam tudo que quisessem: roubariam, estuprariam, matariam, deixariam seus filhos morrerem de fome – apenas para agradar a si mesmas.” Tornar-se atriz e possuir uma casa com jardins não parecia o mesmo que roubar, estuprar e deixar os filhos morrerem de fome, mas os desejos de Amy de atuar e de possuir uma casa não envolviam viver para os outros. E sentindo-se insegura sobre sua própria competência de pensar sobre questões morais, Amy foi deixada sem armas intelectuais com as quais pudesse desafiar o altruísmo e validar seu direito moral aos seus valores pessoais.

Amy também ouvia que pessoas egoístas não têm capacidade para o amor, a gentileza, a consideração, a compaixão ou a generosidade (consulte Smith, 2006, para uma refutação). Essa é outra falsidade comum (que nós trataremos a seguir) que faz as Amys do mundo aceitarem o código do altruísmo. Ela valorizava amor e gentileza, e assim, ao longo do tempo, estudar para ser atriz permaneceu um sonho não realizado – empurrado para as profundezas do seu subconsciente como um pensamento egoísta que não deve ser admitido.

A contradição do altruísmo

Há uma contradição não admitida no código do altruísmo. Se é certo se sacrificar para os outros, não é egoísmo desses outros aceitar o sacrifício? Não deveriam eles, por sua vez, sacrificar-se para os outros e assim por diante, infinitamente, resultando assim em ninguém recebendo aquilo que quer? Uma resposta frequente para esse dilema é que aqueles que são racionais, competentes, produtivos e bem sucedidos devem se sacrificar para aqueles que não são. Isso significa que quanto mais bem sucedido você for, mais você se tornará escravo dos outros – o que significa que as ações que promovem a sua vida (por exemplo, ser criativo e produtivo, conseguir uma boa educação) trabalham contra sua própria vida.

O que é o seu “ego” e como o altruísmo o destrói?

A nossa primeira experiência do ego ocorre quando inicialmente tomamos ciência de algo “lá fora” no mundo em contraste ao “aqui dentro”, em nossa mente – quando percebemos que nossa consciência está à parte da existência. Sem usar palavras, compreendemos que: “É necessário um ato de consciência para estar ciente de tudo isto (por exemplo, esta sala) e que sou eu, minha consciência, que está executando o ato” (Rand, 1990, p. 255). A experiência do ego está apenas implícita em uma criança nos seus primeiros anos de vida. Apenas mais tarde compreende-se conceitualmente que “Eu sou eu, distinto do mundo lá fora”. Gradualmente, o conceito de si mesmo expande-se. Em geral, o ego refere-se a todo aspecto de uma determinada pessoa: todo o seu físico e características da personalidade, todas as suas ideias, crenças e valores, todos os seus hábitos e preferências, todas as suas premissas conscientes e subconscientes, todas as suas experiências, memórias e habilidades. (O ego real da pessoa pode ou não pode corresponder à sua autoimagem, que é o modo como ela vê a si mesma).

De forma mais fundamental, o seu ego é a sua mente racional (Peikoff, 1991). A princípio é a sua mente que faz as escolhas e ações que governam a sua vida. Mas o altruísmo diz que a sua mente não é para você; o que você pensa para si mesmo não tem relevância moral. O altruísmo declara guerra contra você ao afirmar que a sua mente (e corpo) pertence aos outros – que o seu julgamento independente, suas escolhas do que você quer e do que você valoriza não são atos morais – que são, de fato, imorais. De acordo com o código do autossacrifício, o único uso correto da sua mente é descobrir o que os outros querem e agir concordantemente. Assim, o seu ego é suprimido por princípio. O altruísmo leva à autoimolação.

O que é autoestima e como o altruísmo a destrói?

Autoestima é um julgamento que alguém faz de si mesmo. É a própria estimativa da própria aptidão de viver e de ser digno de viver. (Locke, 2006-7). No que se baseia a autoestima? Citando Rand (1961, p. 128), “Autoestima é a certeza inviolada [do homem] de que a sua mente é competente para pensar e de que a sua pessoa é digna de felicidade, o que significa: é digna de viver”.

Autoestima é uma profunda necessidade psicológica. O homem não pode tolerar a convicção de que ele não é bom; a prova disso é que as pessoas que não possuem genuína autoestima erguem defesas elaboradas contra sentimentos de autodúvida ou autodesprezo (Locke 2006-7). Sentir que você não tem valor ou que é “errado” enquanto pessoa é intoleravelmente doloroso. Sem alguma sensação de autoestima, as pessoas estão arriscadas a se suicidar ou a ficar insanas. Sentir-se merecedor de felicidade é um ato egoísta; você está atribuindo valor a si mesmo.

O altruísmo destrói a autoestima pela raiz. Ele diz que enquanto um indivíduo à parte você não tem valor. O filósofo que mais abertamente atacou a autoestima foi Imannuel Kant. Kant considerava o amor próprio “a própria fonte do mal” (citado em Peikoff, 1982, p. 78). Capitular ao amor próprio era “perversidade (a perversidade do coração humano) que secretamente enfraquece a disposição [moral] com princípios destruidores da alma” (Idem). Kant pregava o autossacrifício inflexível. O homem ideal é “uma pessoa que estaria disposta a não apenas cumprir ele mesmo todos os deveres humanos… mas mesmo quando atraído pelos maiores encantos, aceitar contra si mesmo todas as aflições, até a morte mais ignominiosa…” (Peikoff, 192, p.80). O próprio Kant não pregava o altruísmo literal, não o sacrifício para alguém, mas o sacrifício pelo sacrifício.

Kant argumenta:

“É um dever preservar a própria vida e, além do mais, todos tem uma inclinação direta para fazê-lo. Mas por essa razão o cuidado normalmente ansioso com o qual a maioria dos homens cuida disso não tem mérito intrínseco, e a máxima de agir assim não têm significação moral… Mas se adversidades e sofrimentos pesarosos retirarem completamente o gosto pela vida, se um homem infeliz, forte de alma, ao invés de desanimado e abatido com o seu destino, sentir-se revoltado e desejar a morte, e contudo preservar sua vida, sem amá-la por inclinação, nem por medo, mas pelo dever – então sua máxima tem significação moral.” (citado em Peikoff, 1982, pp. 73-4)

Os seguidores de Kant logo encontraram beneficiários para os sacrifícios: ou outros ou a sociedade. O altruísmo deixa claro: você é nada – os outros são tudo. Como notado anteriormente, ninguém poderia viver de forma consistente através do código moral do puro sacrifício de Kant: o sacrifício em prol do sacrifício – ou o sacrifício em prol dos outros.

Vamos tomar o exemplo de Mary, uma mulher de 30 anos que cuida de sua mãe hipocondríaca. Mary se sente muito culpada ao planejar desesperadamente necessárias férias românticas no Caribe com o seu novo namorado. Ela não consegue dizer “Eu quero tirar férias”, sem ter que esconder seu desejo na forma de um dever “Meu médico disse que eu tenho que sair de férias para que eu possa cuidar de minha mãe melhor”. Quando ela está de férias, seu proveito é seriamente prejudicado – que direito ela tem de se divertir quando sua mãe precisa dela? Seu namorado não consegue entender por que ela não consegue “relaxar e curtir”. Ela sente que há algo fundamentalmente errado com ela – ela se sente amargurada quando se sacrifica para a sua mãe ingrata (ou para os outros). Ela sente um crescente ódio pela mãe, a quem ela “supostamente” deveria amar. Mas sua mãe espera que Mary “esteja lá” para ela. Mary se pergunta: “Por que a vida tem que ser tão difícil”? Ela está dilacerada pelo conflito interno e pela culpa. Ela sente no fundo da consciência que a moralidade é um fardo horrível.

Com a autoestima destruída e substituída pela culpa e pelo conflito, a saúde mental é seriamente prejudicada. A saúde mental requer que você coloque valor em si mesmo e que você viva livre de sérios conflitos conscientes ou subconscientes. Mary sente que ela deve sua vida à sua mãe – e ela secretamente também sente, em seus momentos mais rebeldes, que ela tem algum direito não especificado de aproveitar a vida e sair de férias. Nesse conflito, suas premissas altruístas superam suas premissas racionais, autovalorizadoras, porque ela não consegue defender moralmente o seu próprio interesse. Ela sente culpa, não alegria, em suas “férias”.

A felicidade requer a conquista de valores. Como o altruísmo prejudica os valores?

Valores são coisas que você quer, coisas que você considera boas e benéficas, coisas que você acredita que o farão feliz. O altruísmo declara que os únicos valores (moralmente) legítimos são os valores dos outros. O que eles querem é o que conta; o que você quer para você mesmo não. Se você tem valores pessoais, eles têm que ser sacrificados. O estado ideal é aquele de completa privação pessoal, um estado de vazio, exceto por um absoluto: os outros. Isso é chamado de abnegação – um estado que tradicionalmente atrai os maiores elogios morais. Note o culto pelos santos e mártires ao longo da história.

Na realidade, entretanto, a felicidade requer que você persiga e conquiste seus valores pessoais, mas, sob o altruísmo, isso não é ético. No máximo, como observado, os altruístas permitem alguns valores pessoais em suas vidas, sentem-se culpados por isso e então trabalham para agradar os outros a fim de aliviar a culpa. Desde que os outros provavelmente não serão recíprocos (por exemplo, a mãe de Mary), sentimentos de mágoa, injustiça e martírio aparecerão, mas serão suprimidos ou reprimidos.

O que o dever altruísta faz com a própria motivação? Citando Rand (1970, p.866):

“O ‘dever’ destrói os valores: ele exige a traição e o sacrifício dos valores pessoais mais elevados em prol de um mandamento inexplicável – e ele transforma os valores em uma ameaça ao próprio valor moral, desde que a sensação de prazer ou desejo lança dúvidas na pureza dos nossos motivos…”

O altruísmo não exige morte imediata – isso impediria que alguém vivesse para os outros. O que ele exige é o estado de um morto vivo, no qual a ação está divorciada de valores pessoais e de prazer pessoal, ação focada apenas no que os outros querem ou necessitam. Se o altruísmo é autodestrutivo, então qual é a alternativa saudável? O egoísmo. Mas o que significa egoísmo? Significa egoísmo racional.

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Este artigo foi publicado originalmente em Handbook of Managerial Behavior and Occupational Health, editado por A. G. Antoniou, C. L. Cooper, G. P. Chrousos, C. D. Spielberger, & M. W. Eysenck, (Edward Elgar, Northampton, MA, 2009). A publicação deste artigo no Objetivista.com foi autorizada expressamente pelos autores.

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Drº Edwin A. Locke é Professor Emérito de Motivação e Liderança da Universidade de Maryland, College Park. É internacionalmente conhecido pela Teoria do Estabelecimento de Metas que ajudou a desenvolver. Ele praticou psicoterapia em tempo parcial durante quinze anos. http://www.edwinlocke.com/

Drª Ellen Kenner é psicóloga clínica particular e lecionou os cursos Introdução à Psicologia, Transtornos Psicológicos e Teorias da Personalidade em nível universitário. Ela apresenta o programa de rádio “The Rational Basis of Happiness” (A Base Racional da Felicidade) – http://drkenner.com.

Eles são autores de The Selfish Path to Romance – How To Love With Passion and Reason (A Trilha Egoísta Para O Romance – Como Amar Com Paixão e Emoção) inspirado nas ideias de Ayn Rand.

Referências

Binswanger, H. (1991). Volition as cognitive self-regulation. Organizational behavior and human decision processes, 50: 154-178.

Locke, E. A. (2006-7) The educational, psychological and philosophical assault on selfesteem. The Objective Standard, 1, (4), 65-82.

Peikoff, L. (1982) The ominous parallels. New York: Stein & Day.

Peikoff, L. (1991) Objectivism: The philosophy of Ayn Rand. New York: Dutton.

Rand, A. (1961) For the new intellectual. New York: Signet.

Rand, A. (1964) The virtue of selfishness. New York: Signet.

Rand A. (1970) Causality vs. duty, The Objectivist. July, 1970 (reimpresso em The Intellectual Activist, New York, 1986, pp. 865-870).

Rand, A. (1990) Introduction to Objectivist epistemology, 2ª edição. New York: NAL books.

Rand. A. (1992) Atlas shrugged. New York: Signet.

Smith, T. (2006) Ayn Rand’s normative ethics: The virtuous egoist. Cambridge, UK: Oxford.

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Ayn Rand Sobre a Essência da Feminilidade

lindsay-wagner-473x425-27kb-media-4316-media-148026-12402525021“Para uma mulher enquanto mulher, a essência da feminilidade é o culto ao herói – o desejo de reverenciar o homem. ‘Reverenciar’ não significa dependência, obediência ou qualquer coisa que implique inferioridade. Significa um tipo intenso de admiração; e admiração é uma emoção que só pode ser experimentada por uma pessoa de caráter forte e juízos de valor independentes. Um tipo dependente de mulher não é uma admiradora, mas uma exploradora de homens. O culto ao herói é uma virtude exigente: a mulher tem que ser digna disso e do herói que ela cultua. Intelectualmente e moralmente, isto é, enquanto um ser humano, ela tem que ser sua igual; assim, o objeto do seu culto é especificamente a masculinidade dele, não uma virtude humana que possa faltar a ela.

Isso não significa que uma mulher feminina sinta ou projete o culto ao herói para qualquer e todo homem individual; enquanto seres humanos, muitos deles podem, de fato, ser inferiores a ela. O seu culto é uma emoção abstrata ao conceito metafísico de masculinidade enquanto tal – a qual ela experimenta completamente e concretamente apenas com o homem que ela ama, mas que colore a sua atitude em direção a todos os homens. Isso não significa que há uma intenção romântica ou sexual na atitude dela para com todos os homens; muito pelo contrário: quanto maior a sua visão da masculinidade, mais severamente exigente serão os seus padrões. Isso significa que ela nunca perde a consciência da sua verdadeira identidade sexual e da identidade sexual deles. Significa que uma mulher adequadamente feminina não trata os homens como se ela fosse sua camarada, irmã, mãe – ou líder.”

AYN RAND, 1968, An Answer to Readers (About a Woman President)

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Fonte: http://aynrandlexicon.com/lexicon/femininity.html

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A Revolta de Atlas e a Moralidade do Egoísmo de Ayn Rand – Parte III (Final)

Por Craig Biddle

Nota do autor: Esta é uma versão estendida de uma palestra que apresentei em diversas universidades ao longo dos últimos anos.

Como todo código de ética, o egoísmo tem implicações políticas definidas. Assim como a moralidade do autossacrifício estabelece as bases para um tipo específico de sistema de político – no qual o governo obriga as pessoas a se sacrificarem (por exemplo, o socialismo, o comunismo, o fascismo, a teocracia) – a moralidade do autointeresse também estabelece as bases para um tipo específico de sistema político – no qual o governo desempenha um papel inteiramente diferente.

A questão básica na política é: Quais são os requerimentos da vida humana em um contexto social? O que, a princípio, as pessoas devem fazer – ou deixar de fazer – a fim de viver reunidas de uma maneira civilizada? Aqui, Ayn Rand faz outra identificação crucial. Uma vez que, para viver, nós precisamos pensar racionalmente e agir de forma correspondente, nós precisamos ser possibilitados de agir acordo com o nosso julgamento. A única coisa que pode nos impedir de agir de acordo com o nosso julgamento são as outras pessoas. E a única maneira pela qual elas podem nos parar é por meio da força física. Citando Rand:

“É somente por meio da força física que um homem pode privar o outro de sua vida, ou escravizá-lo, ou roubá-lo, ou impedi-lo de perseguir seus próprios objetivos, ou obrigá-lo a agir contra o seu próprio julgamento racional.

A precondição de uma sociedade civilizada é a exclusão da força física das relações sociais – estabelecendo assim o princípio de que se os homens desejam lidar uns com os outros, eles só podem fazer isso por meio da razão: pela discussão, persuasão e concordância voluntária, não coagida.” [13]

Se alguém põe uma arma em sua cabeça e lhe diz o que fazer, você não pode agir de acordo com o seu julgamento. A ameaça de morte torna seu julgamento irrelevante; você agora tem que agir de acordo com o julgamento do atirador. Se ele diz: “Dê-me sua carteira”, você tem que lhe dar sua carteira. Se ele diz, “Tire suas roupas,” você tem que fazer isso. Se ele diz: “Não se oponha aos meus decretos,” você não deve se opor. Você tem que fazer o que ele disser, ou você levará um tiro na cabeça. O seu próprio julgamento – o seu método básico de sobrevivência – foi anulado e agora é inútil.

E não faz diferença se o atirador é um bandido solitário, ou um grupo de bandidos, ou a KGB, ou os senadores e o presidente do nosso país que cada vez mais rápido se deteriora. Quando quer e em qualquer medida que a força física seja utilizada contra você ou contra mim ou contra qualquer pessoa, a vítima não pode agir de acordo com o seu julgamento, o seu método básico para viver; portanto, ela não pode viver plenamente como um ser humano. É por isso que o egoísmo racional sustenta que a iniciação da força contra as pessoas é maligna. É maligna porque é antivida.

Com base nessa identificação, Rand estabeleceu a defesa objetiva dos direitos individuais. Como a força física utilizada contra uma pessoa é factualmente contrária às exigências da sua vida – e desde que a vida é o padrão de valor – nós precisamos de um princípio moral para nos proteger daqueles que tentam usar a força contra nós. Esse princípio envolve o conceito de direito individual. Citando Rand:

“‘Direito’ é um conceito moral – o conceito que fornece uma transição lógica dos princípios que guiam as ações de um indivíduo aos princípios que guiam a sua relação com os outros – o conceito que preserva e protege a moralidade individual em um contexto social – o elo entre o código moral de um homem e o código legal de uma sociedade, entre a ética e a política. Os direitos individuais são os meios de subordinar a sociedade à lei moral…

Um “direito” é um princípio moral que define e sanciona a liberdade de ação de um homem em um contexto social.” [14]

A palavra chave aqui é ação. Assim como a vida é o padrão de valor e requer ação dirigida a objetivos, então o direito à vida é o direito fundamental e refere-se à liberdade de ação. O direito à vida é o direito de agir da forma como a vida requer – o que significa, de acordo com o próprio método básico de sobrevivência – o que significa, de acordo com o julgamento da própria mente.

Todos os outros direitos são derivados deste direito fundamental: O direito à liberdade é o direito de ser livre da interferência coercitiva dos outros. O direito à propriedade é o direito de manter, usar e alienar o produto do seu próprio esforço. O direito à busca da felicidade é o direito de perseguir as metas e os valores da sua própria escolha. O direito à liberdade de expressão é o direito de expressar o seu ponto de vista independentemente do que os outros pensam dele.

E pelo fato de que um direito é uma sanção para agir, ele não é uma sanção para receber bens ou serviços. Não pode haver tal coisa como um “direito” a receber bens ou serviços. Se uma pessoa tivesse um “direito” de receber comida, ou uma casa, ou assistência médica, ou educação, o que isso implicaria em relação às outras pessoas? Implicaria que as outras têm que ser obrigados a fornecer-lhe esses bens ou serviços. Implicaria que algumas pessoas devem produzir enquanto outras dispõem do seu produto. Como afirmou Rand “O homem que produz enquanto outros dispõem do seu produto é um escravo.”

“Se alguns homens são intitulados por direito aos produtos do trabalho dos outros, isso significa que esses outros são privados de direitos e condenados ao trabalho escravo. Qualquer suposto “direito” de um homem que exija a violação dos direitos de outro, não é e não pode ser um direito. Nenhum homem pode ter o direito de impor uma obrigação não escolhida, um dever injustificado ou uma servidão involuntária a outro homem. Não pode haver tal coisa como ‘o direito de escravizar’.” [15]

O Norte dos Estados Unidos lutou (e felizmente ganhou) uma guerra legítima contra o Sul sob o princípio de que nenhum direito de escravizar pode existir. Rand torna explícita a razão fundamental pela qual este princípio é verdadeiro. A razão pela qual a vida de cada indivíduo deve legalmente pertencer a ele mesmo é porque a vida de cada indivíduo moralmente de fato pertence a ele mesmo. Cada indivíduo é moralmente um fim em si mesmo – e não um meio para os fins dos outros. Cada indivíduo tem o direito moral de agir de acordo com o seu próprio julgamento para o seu próprio benefício – e de manter, usar e alienar o produto do seu esforço – desde que ele respeite o mesmo direito dos demais.

A ética Objetivista reconhece que a fim de viver como seres civilizados – em vez de senhores e escravos – nós precisamos de um sistema social que proteja os direitos de cada indivíduo à sua vida, liberdade, propriedade e à busca da felicidade. O único sistema social que faz isso – de forma consistente e por princípios – é o capitalismo laissez-faire. Citando Rand:

“[O capitalismo laissez-faire] é um sistema onde os homens lidam uns com os outros, não como vítimas e algozes, nem como senhores e escravos, mas como comerciantes, através de trocas livres e voluntárias para benefício mútuo. É um sistema onde nenhum homem pode obter quaisquer valores de outras pessoas recorrendo à força física, e nenhum homem pode iniciar o uso da força física contra os outros.” [16]

A única função do governo, em tal sociedade, é a tarefa de proteger os direitos do homem, isto é, a tarefa de protegê-lo da força física; o governo age como agente de legítima defesa do homem, e pode usar a força apenas em retaliação e somente contra aqueles que iniciaram seu uso.”
[17]

Os cidadãos de uma sociedade laissez-faire delegam o uso de força retaliatória ao governo e assim tornam a paz da nação possível.

É claro que, em uma situação de emergência, ou quando a polícia não está disponível, ou quando não há tempo para recorrer ao governo, os cidadãos estão moralmente e legalmente justificados a usar força retaliatória se necessário. (Se alguém está correndo atrás de você com punhal, você está moralmente e legalmente justificado a atirar nele.) Mas para vivermos juntos como seres civilizados, e não como jagunços rivais, as pessoas devem deixar tal força ao governo sempre que possível. Como afirmou Rand, “O governo é o meio de colocar o uso retaliatório da força sob controle objetivo.” [18]

Em uma sociedade capitalista, se alguém prejudica uma pessoa fisicamente ou danifica a sua propriedade ou ameaça fazer uma dessas coisas – e se isso pode ser demonstrado por meio de provas – então a vítima tem bases para os recursos legais e, quando for o caso, para a compensação. Por exemplo, se alguém frauda um homem, ou ameaça assassiná-lo, ou joga lixo em seu quintal, ou envenena seu reservatório de água, ou infringe a sua patente – ou de qualquer outro forma causa a ele ou à sua propriedade danos específicos – então o perpetrador violou os direitos do homem. E se o homem (ou um agente em seu nome) puder demonstrar que o perpetrador fez isso, então ele tem uma queixa contra o violador dos direitos e pode buscar justiça em um tribunal de direito.

Devidamente compreendido, o capitalismo é sobre como possibilitar as pessoas a agirem em seu próprio julgamento, e a manter, usar e alienar o produto do seu esforço. É sobre como impedir as pessoas de prejudicarem fisicamente as outras ou à sua propriedade. É sobre reconhecer e respeitar os direitos individuais. Em outras palavras, é sobre os requerimentos da vida humana em um contexto social.

O capitalismo é o único sistema social que permite que todos ajam plenamente de acordo com o seu próprio julgamento e, portanto, vivam plenamente como seres humanos. Nenhum outro sistema social da Terra faz isso. Assim, se a vida humana é o padrão de valor moral, o capitalismo é o único sistema social moral.

Enquanto o egoísmo racional orienta nossas escolhas e ações em busca de objetivos que servem à nossa vida e à nossa felicidade no longo prazo, o capitalismo laissez-faire protege os direitos individuais banindo a iniciação da força física das relações sociais. Os dois andam de mãos dadas. O egoísmo torna a existência humana possível; o capitalismo torna a coexistência humana possível. Citando Ayn ​​Rand: “Que virtude maior podemos atribuir a um sistema social do que o fato de que ele não deixa possibilidade para qualquer homem servir os seus próprios interesses escravizando outros homens? Que sistema mais nobre poderia ser desejado por qualquer pessoa cujo objetivo é o bem-estar do homem?” [19]

Rand tem muito mais a dizer sobre direitos individuais e capitalismo; eu apenas toquei em seus princípios revolucionários a esse respeito. A Revolta de Atlas é uma ode ao capitalismo e aos fundamentos morais dos quais ele depende. E o livre de Rand Capitalism: The Unknown Ideal é uma série de ensaios que demonstram a natureza vital do sistema social e que derrubam as falácias comuns sobre ele. Para uma boa compreensão dos princípios do capitalismo, eu altamente recomendo os dois livros.

Refletindo sobre o que nós discutimos até aqui, a moralidade do egoísmo de Rand afirma que, a fim de viver como seres humanos, nós temos de perseguir valores que servirão às nossas vidas e respeitar o direito dos outros de fazerem o mesmo. Pondo de forma negativa: Nós nem devemos nos sacrificar para os outros – nem sacrificar os outros para nós mesmos. Um dos heróis em A Revolta de Atlas coloca sob a forma de um juramento: “Eu juro – pela minha vida e pelo meu amor por ela – que eu jamais viverei para o benefício de outro homem, nem pedirei a outro homem que viva para o meu”. Esse é um juramento pelo qual todos nós podemos viver. Mas, para isso, temos que repudiar a moralidade do sacrifício.

A moralidade do egoísmo de Rand é sobre viver e amar a vida. É a moralidade da busca de valores e da recusa de abandonar um valor maior em prol de um menor. É a moralidade da ausência do sacrifício. Não há qualquer razão para agirmos de forma autossacrificial, e é por isso que ninguém jamais deu uma razão para agir assim. Nem há qualquer justificação racional para sacrificar os outros, é é por isso que ninguém jamais ofereceu alguma também. Mas uma razão para agir de maneira autointeressada: A sua vida e a sua felicidade dependem disso.

Pelo fato de que nós necessariamente operamos de acordo com um código de valores de algum tipo ao fazermos escolhas na vida – uma vez que a moralidade é inescapável- aqui está a alternativa que todos nós enfrentamos a esse respeito: Nós podemos aceitar passivamente uma moralidade através da osmose social – ou nós podemos pensar na questão por nós mesmos e decidir o que faz sentido em vista dos fatos observáveis. Nós podemos aceitar apelos à autoridade, à tradição, à opinião popular, à intimidação, e outros semelhantes – ou nós podemos insistir pelas razões a favor da moralidade que escolhemos aceitar. Em outras palavras, nós podemos contar com os pontos de vista e opiniões dos outros – ou nós podemos confiar no julgamento da nossa própria mente.

Isso nos leva ao ponto final que eu quero fazer esta noite – e o qual eu considero como o aspecto mais importante da ética Objetivista: o princípio de que você deve depender das suas próprias observações e do seu próprio uso da lógica, o princípio de que você não deve aceitar ideias só porque os outros as aceitam, o princípio de que você deve pensar por si mesmo.

Pelo fato de que a sua mente é o seu único meio de conhecimento e seu meio básico de alcançar os seus objetivos e valores, o egoísmo racional diz que – se você quer viver e ser feliz – você nunca deve abandonar a sua mente. Você nunca deve sacrificar o seu julgamento para alguém ou alguma coisa – seja a fé, os sentimentos, os amigos, seus pais, seus professores, ou Ayn Rand. E ninguém é mais intransigente sobre isso do que Rand. Como ela disse, “A mais egoísta de todas as coisas é a mente independente que não reconhece autoridade maior do que a sua própria e nenhum valor superior ao seu julgamento da verdade.” [20]

Este é o princípio Objetivista da independência. Um pensador independente depende do seu próprio julgamento para determinar o que é verdadeiro ou falso, bom ou ruim, certo ou errado. Ele não se volta para os outros a fim de saber no que ele deve acreditar ou valorizar. Ele pode aprender com os outros – se eles são racionais e têm algo a lhe ensinar. Ele pode aceitar seus conselhos – se fazem sentido para ele. E ele pode ouvir seus argumentos – quando apresentam evidências para suas afirmações e procedem logicamente. Mas ele sempre faz o julgamento final por meio de seu próprio pensamento. Em relação a qualquer questão importante, ele se pergunta: “Quais são os fatos? O que mostram as evidências? O que eu penso?” Sua orientação primária não é em direção às outras pessoas – nem em direção aos seus colegas ou aos seus pais ou aos seus professores – mas à realidade. E o seu meio de avaliar a realidade é o seu próprio uso da razão.

Porque o egoísmo racional reconhece que a mente do indivíduo é o seu instrumento fundamental para viver, ela defende o pensamento racional, independente, como a essência de ser moral. Ao contrário do altruísmo, ele não lhe pede para aceitar seus princípios por fé ou porque os outros disseram isso. O egoísmo racional não é um dogma. Não é um conjunto de mandamentos ou de “imperativos categóricos” divinos para você obedecer.

Em um dos ensaios de Rand, ela conta a história de uma senhora negra que, em resposta a um homem que dizia que ela tinha que fazer isso e aquilo, disse-lhe o seguinte: “Senhor, não há nada que eu tenha que fazer exceto morrer”. [21] O egoísmo racional não diz que alguém tem que fazer algo. Ele diz apenas que se você quer viver e alcançar a felicidade – então você deve observar os fatos, usar a sua mente, perseguir os seus objetivos, não sacrificar valores maiores em prol de menores, defender o princípio dos direitos individuais, e assim por diante. Isso não é dogma. É lógica. É o reconhecimento da lei da causa e efeito.

E assim como a ética de Rand não é dogmática – ela também não é relativista. Ela é absoluta. É absoluta porque é baseada e derivada da realidade – dos fatos observáveis, das leis da natureza, dos requerimentos da vida humana.

Rand expôs o falso dilema dogmatismo ou relativismo. À luz da sua filosofia, já não somos mais confrontados com a horrível escolha entre a moralidade de Jerry Falwell ou a de Jerry Springer – a de Bill Bennett ou a de Bill Clinton. Nós conhecemos agora uma ética objetiva: uma ética que é secular, baseada na observação, comprovadamente verdadeira – e, o melhor de tudo, boa para você.

Se você quer viver uma vida maravilhosa, repleta de valores, você precisa de uma moralidade que apoia esse objetivo e lhe orienta a agir em direção a isso. Você precisa de uma moralidade que defenda o valor da ação racional, autointeressada, orientada a um propósito. O egoísmo racional é a única moralidade que lhe proporciona isso. Se você quer viver em uma sociedade onde você é livre para conduzir sua vida como você achar melhor – uma sociedade na qual ninguém, incluindo o governo, pode lhe obrigar a agir contra o seu próprio julgamento – você precisa de uma moralidade que conduza a esse objetivo. Você precisa de uma moralidade que forneça uma base para o princípio dos direitos individuais. A única moralidade que faz isso é a ética Objetivista.

O código moral aceito por você sustenta e molda tudo o que você faz na vida. Ele determina se você viverá uma vida rica de significado, realmente feliz – ou algo menor. E ele determina se você defenderá uma sociedade completamente livre e civilizada – ou um outro tipo de sociedade. Eu lhes dei apenas um breve esboço de ética de Rand. Há muito mais nela. Eu espero ter lhes inspirado a pesquisar mais sobre o assunto por vocês mesmos.

Eu lhes peço para examinar mais profundamente a moralidade que diz que você deve viver sua vida ao máximo e alcançar a maior felicidade possível. Usem o seu próprio julgamento para avaliar isso. Vejam se faz sentido para vocês. Leiam A Revolta de Atlas, que é uma fascinante história de mistério que traz no seu âmago o conflito entre altruísmo e egoísmo. Não apenas vocês descobrirão o que aconteceu aos produtores desaparecidos mencionados anteriormente; vocês também verão a ética de Ayn Rand dramatizada de formas que hoje causarão uma sensação de déjà vu. Ou, para uma introdução em não ficção do egoísmo racional, leiam o livro A Virtude do Egoísmo, também de Rand, que é uma série de ensaios que elaboram os princípios inovadores da ética Objetivista – ou o meu livro Loving Life: The Morality of Self-Interest and the Facts that Support It, que é uma introdução sistemática à ética.

Se você não for racionalmente convencidos pelos argumentos, então não os aceite. Sacrificar o seu próprio julgamento seria a coisa mais abnegada que você poderia fazer. Eu nunca iria defender tal coisa – e nem Ayn Rand iria. Você deve aceitar somente aquelas ideias que fazem sentido para você.

Mas se você estudar essa questão e for convencido – como eu acho que você será – então você poderá começar a viver sua vida plenamente de acordo com o único código moral que conduz a esse objetivo: o egoísmo racional – a moralidade que Ayn Rand tão apropriadamente chamou de “A Moralidade da Vida.”

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Sobre o autor: Craig Biddle é editor de The Objective Standard e autor de Loving Life: The Morality of Self-Interest and the Facts that Support It, uma introdução sistemática e altamente concretizada à ética de Ayn Rand. Sua próxima obra, Thinking in Principles: The Science of Selfishness, é sobre como utilizar a mente da forma mais efetiva a serviço da própria vida,  liberdade e felicidade. Além de escrever, ele é palestrante e apresenta seminários sobre questões éticas e epistemológicas a partir de uma perspectiva Objetivista. Biddle apresentou seminários em universidades pelos Estados Unidos , incluindo Stanford, Duke, Tufts, UVA, UCLA, e NYU. O seu website é www.CraigBiddle.com.

Link para o original: https://www.theobjectivestandard.com/issues/2012-summer/atlas-shrugged-ayn-rand-morality-egoism/

Obs: O texto original está protegido por direitos autorais. A sua tradução e publicação nesta página foi expressamente permitida pelo autor.

Notas

[13] Rand, Virtue of Selfishness, pp. 126.

[14] Rand, Virtue of Selfishness, pp. 108–10.

[15] Rand, Virtue of Selfishness, pp. 110–13.

[16] Ayn Rand, The Voice of Reason (Nova York: Meridian, 1989), p. 4.

[17] Ayn Rand, Capitalism: The Unknown Ideal (Nova York: Signet, 1967), p. 19.

[18] Rand, Capitalism: The Unknown Ideal, p. 19.

[19] Rand, Capitalism: The Unknown Ideal, p. 136

[20] Rand, For the New Intellectual, p. 142.

[21] Rand, Philosophy: Who Needs It, p. 99.

 

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A Revolta de Atlas e a Moralidade do Egoísmo de Ayn Rand – Parte II

Por Craig Biddle

Nota do autor: Esta é uma versão estendida de uma palestra que apresentei em diversas universidades ao longo dos últimos anos.

Todas as grandes religiões – Cristianismo, Judaísmo, Islamismo – defendem o altruísmo; os seus livros sagrados exigem isso. Todas as chamadas filosofias “humanistas seculares” – utilitarismo, pós-modernisno, igualitarismo – pedem pelo altruísmo também. (Notem que “humanistas seculares” não chamam a si mesmos de “egoístas seculares” ou “individualistas seculares”.)

“Alter” é o Latim para “outro”; altruísmo significa “outro-ísmo”; ele sustenta que você deve se sacrificar para os outros. Dos pontos de vista Cristão, Judaico e Muçulmano, os “outros” significantes são “Deus” e “os pobres”; no Velho Testamento, por exemplo, Deus ordena: “Livremente abrirás tua mão para o teu irmão, para o teu necessitado, e para o teu pobre na tua terra” (Deuteronômio 15:11). Do ponto de vista utilitário, o “outro” são “todos em geral”; o princípio utilitário é “o maior bem para o maior número”. Do ponto de vista pós-moderno e igualitário, o “outro” é qualquer um com menos riqueza ou oportunidades do que você; em outras palavras, quanto melhor você estiver, mais você deve se sacrificar para os outros – quanto pior você estiver, mais os outros devem se sacrificar para você.

Sacrifique-se. Sacrifique-se. Sacrifique-se. Todo mundo acredita que essa é a coisa moral a ser feita. E nenhum filósofo esteve disposto a desafiar essa ideia.

Exceto Ayn Rand:

“Existem duas palavras – duas únicas palavras – que podem aniquilar a moralidade do altruísmo da existência e as quais o altruísmo não consegue enfrentar – as palavras “por quê?” Por que o homem deve viver para o proveito dos outros? Por que ele deve ser um animal sacrificial? Por que isso é o bem? Não há razão terrena para isso – e, senhoras e senhores, em toda a história da filosofia nenhuma razão terrena foi dada.” [9]

Pelo exame constatamos que isso é verdade. Nenhuma razão jamais foi dada quanto a por que as pessoas devem se sacrificar para as outras. É claro que alegadas razões foram dadas, mas não razões legítimas. Assim, vamos considerar as alegadas razões – da quais há aproximadamente seis – cada uma delas envolve uma falácia lógica.

  1. “Você deve se sacrificar porque Deus (ou alguma outra voz de outra dimensão) disse isso”. Isso não é uma razão – certamente não uma razão terrena. Na melhor das hipóteses, é um apelo à autoridade – isto é, às “autoridades” que alegam falar por Deus. Só porque um pregador ou um livro faz uma afirmação não significa que a afirmação é verdadeira. A Bíblia afirma, entre outras coisas, que um arbusto falou. Mais fundamentalmente, essa falta de razão é um alegação arbitrária pois não há evidência para a existência de um deus. Mas mesmo aqueles que acreditam em algum deus podem reconhecer a falácia do apelo à autoridade.
  2. “Você deve se sacrificar porque isso é um consenso geral.” Isso também não é uma razão mas um apelo às massas. Questões de verdade e moralidade não são determinadas por consenso. Que a escravidão deve ser legal costumava ser o consenso geral nos Estados Unidos, e ainda é um consenso em partes da África. Isso não a fazia e nem a faz assim. E nenhum consenso legitimará a noção de que você ou qualquer pessoa deve se sacrificar ou ser sacrificado.
  3. “Você deve se sacrificar porque outras pessoas necessitam dos benefícios do seu sacrifício”. Isso é um apelo à piedade. Mesmo se outras pessoas realmente necessitassem do seu sacrifício, não seguiria que essa é uma razão para você se sacrificar. Mais importante, a noção de que pessoas necessitam do benefício do seu sacrifício é falsa. O que as pessoas necessitam é produzir valores e comercializá-los com outras pessoas que produzem valores. E, para fazer isso, elas e as outras devem ser livres para produzir e fazer comércio de acordo com seu próprio julgamento. Isso, não o sacrifício humano, é o que a vida humama requer. (Eu abordarei o relacionamento entre liberdade e egoísmo um pouco mais tarde).
  4. “Você deve se sacrificar porque se você não fizer isso, você será agredido, ou será multado, ou jogado na prisão, ou atingido fisicamente de alguma outra maneira”. A ameaça de força não é uma razão; é o oposto de uma razão. Se os que empregam a força pudessem oferecer uma razão para você se sacrificar, eles não teriam que usar a força; eles poderiam usar a persuasão ao invés da coerção.
  5. “Você deve se sacrificar porque, bem, quando você amadurecer ou adquirir sabedoria você entenderá que isso é o que deve ser feito”. Isso não é uma razão, mas um ataque pessoal e um insulto. O que se diz, efetivamente, é “se você não entende a virtude do sacrifício, então você é infantil ou estúpido” – como se exigir uma razão em apoio a uma convicção moral pudesse indicar falta de maturidade ou inteligência.
  6. “Você deve se sacrificar porque apenas uma pessoa ruim ou um mau caráter poderiam contestar esse fato estabelecido”. Esse tipo de afirmação pressupõe que você considera as opiniões que os outros têm sobre você mais importantes do que o seu próprio julgamento da verdade. É também um exemplo do que Ayn Rand chamava “O Argumento da Intimidação”: a tentativa de colocar pressão psicológica no lugar da argumentação racional. Tal como o ataque pessoal, é uma tentativa de que se evite a apresentação de uma defesa racional a favor de uma posição para a qual nenhuma defesa racional pode ser feita.

É isso. Tais são as “razões” oferecidas em apoio da alegação de que você deve se sacrificar. Não tome a minha palavra como final; questione em outros lugares. Pergunte aos seus professores de filosofia. Pergunte a um padre ou a um rabino. Você descobrirá que todas as “razões” oferecidas são variantes dessas – cada uma das quais, longe de ser uma “razão”, é uma falácia encontrada nos livros-texto de lógica. (A maioria delas até mesmo possui nomes de fantasia latinos).

Ayn Rand exigia razões para as suas convicções. Assim como nós devemos exigir.

Ela buscou descobrir uma moralidade racional – que fosse baseada nos fatos observáveis ​​e na lógica. Em vez de começar com a pergunta “Qual dos códigos de valor existentes eu devo aceitar?” – Ela começou com a pergunta, “O que são valores e por que o homem necessita deles”? Essa pergunta lhe apontou para longe das visões estabelecidas – e em direção aos fatos da realidade.

Olhando para a realidade, Rand observou que um valor é aquilo pelo qual alguém age a fim de obter ou manter. Você pode ver a verdade disso em sua própria vida: Você age para obter e manter dinheiro; você o valoriza. Você age para obter e manter boas notas; você as valoriza. Você age para escolher e desenvolver uma carreira gratificante. Você busca encontrar o cara ou a garota ideal e construir um maravilhoso relacionamento. E assim por diante.

Olhando para a realidade, Rand também viu que apenas organismos desempenham ações autogeradas, direcionadas a objetivos. Árvores, tigres e pessoas desempenham ações em direção a objetivos. Rochas, rios e martelos não. Árvores, por exemplo, estendem suas raízes para dentro do solo e seus ramos e folhas para o céu; elas valorizam nutrientes e luz solar. Tigres caçam antílopes, e dormem sob as árvores; eles valorizam alimentos e sombra. E pessoas agem para obter seus valores, tais como nutrição, educação, carreira, romance, etc.

Além disso, Rand observou que a razão final pela qual os organismos vivos desempenham tais ações é a sustentação das suas vidas. Ela descobriu que a vida de um organismo é o seu objetivo maior e padrão de valor – e que a vida do homem é o padrão de valor moral: o padrão pelo qual julgamos o que é bom e o que é ruim. A vida do homem – significando aquilo que é necessário para sustentar e promover a vida de um ser humano – constitui o padrão de valor moral.

Agora, a validação do princípio de que a vida é o padrão de valor tem um série de aspectos, e nós não temos tempo de considerar todos eles esta noite. Para os nossos propósitos aqui, eu quero focar brevemente em apenas alguns deles.

Ao perseguir a questão “Por que o homem necessita de valores?” – Ayn Rand manteve seu pensamento orientado aos fatos. Se o homem necessita de valores, então a razão pela qual ele necessita deles seguirá um longo caminho para a determinação de quais valores são legítimos e quais não são. Se o homem não necessitasse de valores, bem, então, ele não necessitaria deles – e não haveria qualquer razão para perseguir o problema. O que Rand descobriu é que o homem realmente necessita de valores – e a razão pela qual necessita deles é a fim de viver. A vida, ela descobriu, é o objetivo final de nossas ações; a vida é o fim último para o qual todos os outros valores são devidamente os meios.

De fato, porque temos livre arbítrio, nós podemos tomar atitudes contrárias à vida – e, como nós vimos, o altruísmo insensatamente nos clama a fazer exatamente isso. Mas o ponto é que nós não necessitamos tomar atitudes contrárias à vida, a menos que queiramos morrer – nesse caso, não precisamos realmente tomar qualquer atitude. Nós não precisamos fazer qualquer coisa para morrer; se isso é o que queremos, devemos apenas parar completamente de agir e em breve iremos definhar.

Se queremos viver, entretanto, devemos perseguir valores que servem à nossa vida –e devemos agir assim por escolha.

O livre-arbítrio nos habilita a escolher nossos valores. Isso é o que dá origem ao campo da moralidade. A moralidade é o reino dos valores escolhidos. Mas quaisquer que sejam as nossas escolhas, estes fatos permanecem: A única razão pela qual nós podemos perseguir valores é porque estamos vivos, e a única razão pela qual necessitamos perseguir valores é a fim de viver.

Este princípio bilateral da filosofia de Rand é essencial para o entendimento de como a moralidade Objetivista está fundamentada nos fatos imutáveis ​​da realidade: (1) Só a vida torna valores possíveis – pois coisas não vivas não podem perseguir valores; e (2) só a vida torna valores necessários – pois apenas coisas vivas necessitam perseguir valores.

Observando a realidade, podemos ver que isso é verdade: Uma rocha não tem valores. Ela não pode agir para obter ou manter coisas; ela apenas permanece imóvel – a menos que alguma força externa, tal como uma onda marítima ou um martelo, consiga atinjá-la e a movê-la. E ela não necessita obter ou manter coisas, pois a sua existência contínua é incondicional. Uma rocha pode mudar de forma – por exemplo, ela pode ser esmagada e virar areia, ou derretida e se tornar líquida, mas não pode sair da existência. A existência contínua de um organismo vivo, no entanto, é condicional – e isto é o que dá origem à possibilidade e necessidade de valores. Uma árvore deve realizar certos objetivos – ou senão ela morrerá. Seus elementos químicos permanecerão, mas a sua vida sairá da existência. Um tigre deve realizar certos objetivos também, ou ele terá o mesmo destino. E uma pessoa – se deve permanecer viva – deve igualmente realizar certos objetivos.

A ética Objetivista – reconhecendo tudo isso – mantém a vida humana como o padrão de valor moral. Ela sustenta que agir de acordo com os requerimentos da vida humana é moral, e agir em contradição a esses requerimentos é imoral. É uma ética baseada em fatos, preta e branca.

Agora, combinando o princípio de que a vida humana é o padrão de valor moral com o fato observável de que as pessoas são indivíduos – cada uma com o seu próprio corpo, sua própria mente, sua própria vida – nós chegamos a outro princípio da ética Objetivista: a própria vida de cada indivíduo é o seu próprio valor maior. Isso significa que cada indivíduo é moralmente um fim em si mesmo – não um meio para os fins dos outros. Assim, ele não tem o “dever” moral de se sacrificar para o proveito dos outros. Nem ele tem o “direito” moral de sacrificar os outros para o seu próprio proveito. Por princípio, nem o autossacrifício, nem o sacrifício dos outros é moral, porque, por princípio, o sacrifício humano enquanto tal é imoral.

A vida humana não requer que as pessoas se sacrifiquem para o proveito das outras; nem requer que as pessoas sacrifiquem outras para o seu próprio proveito. A vida humana simplesmente não requer sacrifício humano; as pessoas podem viver sem abrir mão de suas mentes, seus valores, suas vidas; as pessoas podem viver sem matar, espancar, roubar ou enganar umas às outras.

Além disso, o sacrifício humano não pode promover a vida e a felicidade humanas; ele só pode levar ao sofrimento e à morte. Se as pessoas querem viver e ser felizes, elas nem devem se sacrificar e nem sacrificar os outros; em vez disso, eles devem perseguir valores que servem às suas vidas e respeitar os direitos das outras de fazer o mesmo. E, dado o papel da moralidade na vida humana, a fim de agir dessa forma, elas devem aceitar a moralidade que defende agir dessa forma.

Em uma frase, a ética Objetivista sustenta que o sacrifício humano é imoral – e que cada pessoa deve perseguir os valores que servirão às suas vidas e respeitar os direitos das outras de fazer o mesmo. Esse é o princípio básico do egoísmo racional. E a razão pela qual ela soa tão bem é porque ele é o bem; ele é correto; ele é verdadeiro. Esse princípio é derivado dos fatos observáveis ​​da realidade e dos requerimentos demonstráveis ​​da vida humana. De onde mais princípios morais válidos poderiam vir? E a qual outra finalidade eles poderiam servir?

Agora nós podemos entender por que Ayn Rand disse que “O propósito da moralidade é lhe ensinar, não a sofrer e a morrer, mas a apreciar a si mesmo e a viver”. A moralidade, corretamente concebida, não é um empecilho a uma vida de felicidade; ao invés disso, ela é o meio para tal vida.

Assim, vamos nos voltar à questão de como apreciar a si mesmo e viver. Se essa é a coisa certa a fazer, então qual – de acordo com a ética Objetivista – é o meio para esse fim?

Em primeiro lugar e mais importante, a fim de viver e alcançar a felicidade, nós temos que usar a razão. Daí a palavra tecnicamente redundante “racional” em “egoísmo racional”. A razão é o nosso meio de entender o mundo, a nós mesmos, e as nossas necessidades. É a faculdade que opera por meio da observação perceptiva e da abstração conceitual – por meios dos nossos cinco sentidos e de nossa capacidade de pensar logicamente, de fazer conexões causais e de formar princípios.

É por meio da razão que nós identificamos o que as coisas são, quais propriedades elas têm, e como nós podemos utilizá-las para os propósitos que servirão à nossa vida. Por exemplo, é pelo uso da razão que nós aprendemos sobre as plantas, o solo, os princípios da agricultura e sobre como produzir alimentos. É por meio da razão que nós aprendemos sobre a lã, a seda e a tecer e produzir roupas. É por meio da razão que nós aprendemos os princípios da química e da biologia e a produzir remédios e realizar cirurgias; os princípios da engenharia e como construir casas e arranha-céus; os princípios da aerodinâmica e como construir e fazer voar jatos jumbo; os princípios da física e como produzir e controlar energia nuclear. Assim por diante.

Em um nível mais pessoal, é por meio da razão que somos capazes de desenvolver carreiras realizadoras, de nos engajar em hobbies gratificantes e de estabelecer e manter boas amizades. E é por meio da razão que somos capazes de alcançar o sucesso no romance.

Desde que esse último é talvez menos óbvio do que os outros, vamos nos focar nele isso por um minuto.

Para estabelecer e manter um bom relacionamento romântico, você tem que levar em conta todos os fatos relevantes pertinentes a esse objetivo. Para começar, você tem que saber que tipo de relacionamento será realmente bom para a sua vida; você não nasceu com esse conhecimento, nem você o obtém automaticamente. Para adquiri-lo, você tem que observar a realidade e pensar logicamente. Além disso, você tem que encontrar alguém que se ajuste às suas necessidades e viva de acordo como os seus padrões. Para fazer isso, você tem que julgar com precisão os caracteres e qualidades das pessoas – o que exige a razão. Uma vez encontrada, você tem que tratar a pessoa de forma justa – como ele ou ela merece ser tratado. Para fazer isso, você tem que entender e aplicar o princípio da justiça (que discutiremos em breve). O seu meio de entendimento e aplicação disso é a razão.

Para ter sucesso no romance, você tem que descobrir e agir de acordo com muitos fatos e princípios. Você deve pensar e agir racionalmente. Se você escolher uma parceria amorosa irracionalmente, ou tratá-la irracionalmente, então sua vida amorosa estará condenada. Tenho certeza que todos vocês conhecem pessoas que abordaram seus relacionamentos irracionalmente – e quais foram os resultados.

A ética Objetivista reconhece que a razão é o nosso meio de viver e de e alcançar a felicidade. Assim, ela defende a razão como nosso guia em todas as áreas da vida: material, espiritual, pessoal, social, sexual, profissional, recreacional – você diz.

Agora, e quanto às emoções? Onde elas se encaixam no quadro?

A ética Objetivista reconhece e defende o papel crucial das emoções na vida e felicidade humanas. As emoções são os nossos meios psicológicos de desfrutar a vida – que é o propósito de viver. Mas, para esse fim, é importante tratar as emoções pelo que elas são e não esperar que elas sejam o que não são.

O que são exatamente emoções? Elas são consequências automáticas dos nossos juízos de valor. Elas surgem a partir das nossas avaliações das coisas, pessoas e eventos em nossas vidas. Por exemplo, se você se candidatar a um emprego que você considera ideal para o seu plano de carreira, e você for contratado, você experimentará emoções alegres e positivas. Se você não for, você experimentará sentimentos de frustração ou decepção. Similarmente, se você não vê seu bom amigo há muito tempo e você se encontra com ele em um restaurante, você ficará contente em vê-lo. Se, no entanto, ele lhe informa que entrou para a Igreja da Cientologia, você ficará muito chateado. Se em seguida ele lhe diz que estava brincando, você sentirá um certo alívio. Da mesma forma, se seu time predileto vencer um grande jogo, você reagirá de uma forma. Se o seu time perder, você reagirá de outra forma – especialmente se você apostou muito dinheiro no jogo.

Suas emoções refletem o que é importante para você; elas são, como Rand dizia, “estimativas altamente velozes das coisas ao seu redor, calculadas de acordo com os seus valores”. Enquanto tais, elas são cruciais à sua vida. Se você não experimentou a emoção do desejo, você não teria motivação para desempenhar qualquer ação – e você em breve morreria. Se você nunca experimentou alegria, você não teria qualquer razão para permanecer vivo; uma vida desprovida de alegria não é uma vida que vale à pena ser vivida. Nós precisamos de emoções.

Mas as emoções não são a nossa forma de conhecimento. Elas não podem nos dizer quais frutos são comestíveis ou como construir uma cabana, como realizar uma cirurgia cardíaca ou como fabricar um iPod, quem é honesto ou quem tem o direito de fazer o quê, o que fazer quanto ao terrorismo ou o que vai nos tornar felizes. Só a razão pode nos dizer tais coisas.

Assim, o egoísmo racional defende que devemos respeitar cada uma das nossas faculdades mentais pelo que ela é. Ao contrário das moralidades emocionalistas – que tratam as emoções como se eles pudessem nos dizer o que é verdadeiro e o que é bom e o que é correto – a moralidade Objetivista reconhece as emoções pelo que elas são exatamente e as trata de acordo. Esperar que as emoções sejam o que elas não são – ou façam o que elas não podem fazer – é fazer mau uso delas. Assim como nós não chamamos aqueles que abusam de crianças de “defensores das crianças”, nós não devemos chamar aqueles que abusam das emoções de “defensores das emoções”. Eles não são.

A ética Objetivista é pró-emoção – e é o único código moral assim. Ela é tanto 100 por cento pró-razão – quanto 100 por cento pró-emoção. Ele defende o uso adequado de cada faculdade mental em todos os momentos considerando que a vida e a felicidade humanas dependem do seu uso adequado.

A razão é o nosso único meio de conhecimento – e assim o nosso mecanismo básico para viver. As emoções são as consequências automáticas dos nossos juízos de valor – e assim o nosso mecanismo psicológico de desfrutar a vida. Devidamente compreendidos, a razão e as emoções não são aspectos conflitantes da natureza humana; ao invés disso, elas são uma equipe harmoniosa a serviço da vida.

A ética Objetivista afirma que você deve perseguir os valores que servirão à sua vida com o todo da sua vida em mente, incluindo todas as suas necessidades – físicas, intelectuais e emocionais – ao longo do seu inteiro ciclo de vida. Seu instrumento básico para fazer isso é a razão.

Assim, o egoísmo não ensina a “fazer aquilo que se gosta”ou “fazer aquilo que se sente vontade de fazer” ou “esfaquear os outros pelas costas para conseguir o que se quer”. Essas são caricaturas do egoísmo perpetradas pelos defensores do altruísmo que buscam igualar egoísmo com hedonismo, subjetivismo e predação. Novamente, não seja enganado! O egoísmo não é o hedonismo; ele não diz: “Faça o que quer que lhe der prazer independente dos efeitos sobre a sua vida”. O egoísmo não é o subjetivismo; ele não diz: “Faça o que quer que você sinta vontade de fazer independente das consequências”. E o egoísmo não é a predação; ele não apenas afirma que você não deve conquistar valores pelo abuso dos outros; ele fundamentalmente afirma que você nem mesmo conseguiria conquistar valores que servirão à sua vida através da desonestidade, da injustiça ou da coerção.

O egoísmo não defende o prazer ou os sentimentos ou a conquista como o padrão de valor. Ele defende a vida como o padrão de valor – e a razão como o seu instrumento básico para viver. Assim, um egoísta sempre se esforça para agir de acordo com o seu máximo interesse no longo prazo – como julgado pelo seu uso da razão. Em outras palavras, um egoísta é racionalmente orientado por objetivos, o que nos leva a outro aspecto chave da moralidade de Rand: o valor do propósito.

Um propósito é um objetivo consciente, intencional. Uma pessoa que age propositadamente está em busca de algo – ao contrário de errar ou vagar sem rumo. A busca racional de objetivos que servem à vida é a essência de viver bem; o propósito é a marca registrada do autointeresse.

Se nós quisermos fazer o máximo dos nossos dias e anos – se quisermos ser completamente egoístas – nós temos de ser conscientemente orientados por objetivos em todas as áreas da nossa vida onde se aplica a escolha. Por exemplo, nós temos que escolher uma carreira que nós amaremos. Temos que pensar racionalmente sobre como ter sucesso nela. Nós precisamos planejar a longo prazo e trabalhar duro para realizar excelência e felicidade em nosso campo escolhido. Nós também temos que escolher e perseguir hobbies interessantes e atividades recreativas que nos trarão grande alegria – seja compor músicas ou andar a cavalo ou surfar ou blogar, etc. E, como mencionado anteriormente, nós temos que buscar amizades e romance. Tais propósitos são essenciais para uma vida de felicidade.

Nossos propósitos na vida, de acordo com a ética Objetivista, são o que tornam a vida significante. São eles que enchem nossas vidas com intensidade e refinamento e alegria. Eles são o material da boa vida. E se nossos propósitos devem servir a esse propósito, eles devem ser escolhidos e buscados racionalmente. Razão e propósito andam de mãos dadas. Ter propósitos racionais é essencial para a nossa vida e felicidade.

Outro valor identificado por Rand como crucial à vida e à felicidade humanas é a autoestima – a convicção de que se é capaz de viver e se é digno de felicidade. Eu não vou falar muito sobre isso, pois é um requerimento relativamente óbvio da vida e da felicidade. Aqui basta dizer que nós não nascemos com autoestima; nós temos de merecê-la. E a única maneira de merecê-la é pensar racionalmente e agir propositadamente.

Estes três valores – razão, propósito e autoestima – são, como Rand afirmava, “os três valores que, juntos, são os meios e a realização do nosso valor maior, a nossa própria vida”. [10] Para viver como seres humanos temos de pensar (razão); temos de escolher e perseguir objetivos que promovem a vida (propósito); e temos de alcançar e manter a convicção de que nós somos capazes de viver e dignos de felicidade (autoestima). Todos os três são necessários para o sucesso em todas as áreas da nossa vida.

Fundamentados nesses valores básicos, vamos nos voltar a alguns princípios sociais fundamentais identificados por Ayn Rand. Vamos examinar primeiro o princípio Objetivista da justiça.

“Justiça”, escreve Rand, “é o reconhecimento do fato de que você não pode falsificar o caráter dos homens, assim como você não pode falsificar o caráter da natureza…” [11]. Porque as pessoas têm livre arbítrio, o caráter de uma pessoa é o que ela escolhe fazer dele. Nós podemos reconhecer esse fato ou não – mas, de qualquer maneira, o fato permanece. Uma pessoa tem o caráter que ela tem; ela é responsável por ele; e o seu caráter, seja bom ou ruim, pode afetar a nossa vida de acordo com o que ele é. Uma pessoa de bom caráter pode gerar boas ideias, criar produtos que servem à vida, prover amizade ou romance, tornar-se um político honesto, ou de alguma forma ter um impacto positivo na nossa vida. Uma pessoa de mau caráter pode gerar más ideias, destruir valores que servem à vida, nos enganar, nos atacar, roubar nossa propriedade, defender leis que prejudicam a vida, ou até mesmo nos matar.

Justiça é a virtude de julgar as pessoas racionalmente – de acordo com os fatos disponíveis e relevantes – e tratá-las de acordo – como elas merecem ser tratadas. Esse é o princípio básico da interação humana egoísta. A fim de viver, de proteger nossos direitos e de alcançar a felicidade, nós temos que julgar as pessoas. “O preceito: “Não julgue, para não ser julgado”, escreve Ayn Rand, “é uma abdicação da responsabilidade moral.. O princípio moral a ser adotado nesta questão é: ‘Julgue e esteja preparado para ser julgado”. Ainda citando Rand:

“Nada pode corromper e desintegrar uma cultura ou o caráter de um homem tão completamente quanto o preceito do agnosticismo moral, a ideia de que nunca devemos fazer julgamento moral sobre os outros, que precisamos ser moralmente tolerantes com qualquer coisa, que o bem consiste em não distinguir entre o bem e o mal.

É óbvio quem lucra e quem perde com tal preceito. Não é justiça ou igualdade de tratamento o que você concede aos homens quando igualmente se abstém de elogiar as suas virtudes e de condenar os seus vícios. Quando sua atitude imparcial declara efetivamente que nem o bem e nem o mal podem esperar qualquer coisa de você – a quem você trai e a quem você encoraja?” [12]

Apenas um tipo de pessoa tem algo a temer de um julgamento moral; o resto de nós apenas pode se beneficiar com isso. Ser justo consiste em reconhecer esse fato e agir de acordo com ele.

Para viver com de forma próspera, feliz e livre, temos que julgar nossos amigos, nossos pais, nossos empregadores e empregados, nossos professores e nossos políticos. Temos que julgar todos aqueles que têm um impacto em nossa vida. Temos que julgá-los racionalmente – e tratá-los de acordo com isso.

Em certo sentido, isso é tão óbvio que parece tolice ter que dizê-lo. Mas dada as visões sobre moralidade comumente aceitas – do princípio bíblico: “Não julgue para não ser julgado” ao mantra relativista: “Quem é você para julgar?” – isso não apenas tem que ser mencionado; isso tem que ser ressaltado. Julgar as pessoas racionalmente e tratá-las de acordo com o julgamento é um requerimento da vida humana.

Enquanto aqueles que não se importam com a vida humana podem ser indiferentes a esse fato, aqueles de nós que queremos viver precisamos levá-lo muito a sério. Precisamos sustentar e defender o princípio da justiça, e não apenas quando se trata de condenar aqueles que são maus, mas também, e mais importante, quando se trata de elogiar, recompensar, e defender aqueles que são bons – aqueles que pensam racionalmente e produzem os valores dos quais a vida humana depende: cientistas que descobrem as leis da natureza, inventores que criam novos dispositivos e medicamentos que servem à nossa vida, empresários que produzem e comercializam bens e serviços que melhoram a nossa vida, artistas que criam valores espirituais que abastecem nossas almas e nos trazem alegria, assim por diante. A justiça exige que reconheçamos tais pessoas como boas – boas porque de forma autointeressada usam a razão e produzem valores que servem à vida.

Ao estudar a ética de Ayn Rand – além de aprender muito mais a respeito das suas ideias sobre razão, propósito, autoestima e justiça – você descobrirá o significado objetivo e a necessidade egoísta das virtudes da honestidade, integridade, produtividade e orgulho. Em cada caso, Rand aponta os fatos que dão margem à necessidade de tais virtudes; ela mostra por que sua vida e sua felicidade dependem delas; e ela fornece um sistema filosófico integrado para guiar suas ações adequadamente.

Eu meramente indiquei o tipo de orientação oferecida pelo egoísmo. Mas à luz do que vimos até aqui, considere por um momento como ela se compara à orientação fornecida pelo altruísmo. Dados os muitos valores dos quais a vida e felicidade humanas dependem – de valores materiais, tais como comida, abrigo, roupas, tratamentos médicos, automóveis e computadores; a valores espirituais, tais como conhecimento, autoestima, arte, amizade e amor romântico – nós precisamos de muita orientação ao fazer escolhas e tomar atitudes. Nós precisamos de princípios morais que conduzam à meta de viver de forma plena e feliz através da passagem de anos e décadas. Em resposta a essa necessidade, o egoísmo fornece um completo sistema de princípios integrados, não contraditórios, cujo único propósito é nos ensinar a viver e apreciar a vida. Em resposta a essa mesma necessidade, o altruísmo diz: Não seja egoísta; sacrifique seus valores; desista dos seus sonhos.

Se nós queremos viver e ser felizes, apenas uma dessas moralidades nos servirá.

E assim como o egoísmo é a única moralidade que fornece orientação adequada para as nossas vidas pessoais, ela também é a única moralidade que fornece uma fundação adequada para uma sociedade civilizada. Vamos nos voltar brevemente à política implicada pelo egoísmo.

[Em breve a Parte III]

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Sobre o autor: Craig Biddle é editor de The Objective Standard e autor de Loving Life: The Morality of Self-Interest and the Facts that Support It, uma introdução sistemática e altamente concretizada à ética de Ayn Rand. Sua próxima obra, Thinking in Principles: The Science of Selfishness, é sobre como utilizar a mente da forma mais efetiva a serviço da própria vida,  liberdade e felicidade. Além de escrever, ele é palestrante e apresenta seminários sobre questões éticas e epistemológicas a partir de uma perspectiva Objetivista. Biddle apresentou seminários em universidades pelos Estados Unidos , incluindo Stanford, Duke, Tufts, UVA, UCLA, e NYU. O seu website é www.CraigBiddle.com.

Link para o original: https://www.theobjectivestandard.com/issues/2012-summer/atlas-shrugged-ayn-rand-morality-egoism/

Obs: O texto original está protegido por direitos autorais. A sua tradução e publicação nesta página foi expressamente permitida pelo autor.

Notas

[9] Rand, Philosophy: Who Needs It, pp. 61–62.

[10] Rand, Virtue of Selfishness, p. 27.

[11] Ayn Rand, For the New Intellectual (Nova York: Signet, 1963), p. 129.

[12] Rand, Virtue of Selfishness, pp. 82–83.

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Arquivado em Craig Biddle

A Revolta de Atlas e a Moralidade do Egoísmo de Ayn Rand – Parte I

Por Craig Biddle

Nota do autor: Esta é uma versão estendida de uma palestra que apresentei em diversas universidades ao longo dos últimos anos.

Em razão da sua aparente natureza profética em relação aos eventos atuais, o romance A Revolta de Atlas de Ayn Rand, publicado em 1957, está recebendo mais atenção e vendendo em maior volume hoje do que quando foi publicado pela primeira vez há cinquenta e cinco anos [O texto original foi escrito em 2012 (n.t.)]. Isso é uma coisa boa porque as ideias estabelecidas em Atlas são cruciais para a felicidade pessoal, a harmonia social e a liberdade política.

A Revolta de Atlas é antes de tudo uma brilhante história de suspense sobre um homem que disse que iria parar o motor do mundo e o fez. Mas o livro é muito mais que uma grande novela. Integrado à história está uma filosofia revolucionária – uma filosofia voltada não para debates vazios, afastados da realidade, ou para jogos de palavras acadêmicos ou à preparação de um “pós-vida”, mas para entender a realidade, conquistar valores e viver na terra.

A filosofia de Rand, nomeada por ela de Objetivismo, inclui uma visão da natureza da realidade, dos meios de conhecimento do homem, da natureza e meios de sobrevivência do homem, de uma correta moralidade, de um correto sistema social e da natureza e valor da arte. Trata-se de uma filosofia abrangente que, após escrever A Revolta de Atlas, Rand elaborou em diversos livros de não ficção. Mas tudo isso estava contido inicialmente em Atlas, no qual Rand dramatizou sua filosofia – juntamente com as ideias que se opõem a ela.

Enquanto escrevia Atlas, Rand fez uma anotação em seu diário na qual ela dizia, “Meu mais importante trabalho é a formulação de uma moralidade racional de e para o homem, de e para a sua vida, de e para esta terra“.[1] Ela continuou a formular exatamente tal moralidade, e a mostrar o que ela significa na prática.

Esta noite, iremos focar na moralidade apresentada em A Revolta de Atlas, mas eu quero fazer isso sem revelar o romance para aqueles de vocês que ainda não o leram. E já que é impossível dizer muito da substância de Atlas sem entregar elementos chave do enredo e do mistério do romance, eu vou limitar minha discussão sobre o livro a uma breve indicação do seu enredo – sem revelar nada de essencial – após isso eu discutirei a moralidade do egoísmo de Ayn Rand diretamente.

A Revolta de Atlas é uma história sobre um mundo futuro no qual todo o planeta, com exceção dos Estados Unidos, caiu sobre o domínio de vários “Estados Populares” ou ditaduras. Os Estados Unidos, o único país que ainda não está totalmente socializado, está deslizando rapidamente nessa direção, já que cada vez mais aceita ideias que levam à ditadura, ideias tais como o autossacrifício é nobre, o autointeresse é maléfico, e produtores e empresários gananciosos têm a obrigação moral de servir ao “bem maior” da sociedade.

Dado esse clima cultural, a economia se torna cada vez mais controlada pelo governo, e o país desliza mais e mais para o caos econômico: Fábricas são paralisadas, trens param de circular, negócios fecham suas portas, pessoas passam fome – justamente o que você esperaria se o governo dos EUA começasse a agir como o governo da URSS.

Mas então algo estranho começa a acontecer. Os maiores produtores dos Estados Unidos – vários cientistas, inventores, empresários e artistas – começam a desaparecer. Um por um, eles simplesmente somem. E ninguém sabe aonde eles foram ou por quê.

Consequentemente, a oferta de bens e serviços – de descobertas científicas ao cobre, ao trigo, aos automóveis, ao petróleo, à medicina, ao entretenimento – é reduzida a quase nada e eventualmente começa a cessar. A vida como os americanos uma vez conheceram deixa de existir. O país está em ruínas.

Para onde foram os produtores e por quê? Eles foram mortos? Foram sequestrados? Eles irão voltar? Como isso será resolvido?

Leiam o livro. Vocês ficarão fissurados.

Como havia dito, eu não pretendo revelar a história, mas eu vou mencionar o seu tema. O tema de A Revolta de Atlas é o papel da mente na existência do homem. O romance dramatiza o fato de que a mente racional é a fonte básica dos valores que a vida humana depende. E isso não é apenas o tema de Atlas; é também a essência da filosofia do Objetivismo de Rand: A razão – a faculdade que opera por meio de observação, conceitos e lógica – é a fonte de todo o conhecimento, valores e prosperidade.

Nesse mesmo sentido, o tema da minha conversa hoje à noite é o papel da mente – especificamente da sua mente – em entender, avaliar e adotar um código moral.

Suponha que lhe são oferecidos dois códigos morais para a sua escolha – e seja qual for a sua escolha, você terá que viver por ela pelo resto da sua vida. O primeiro código moral diz que sua vida é extremamente importante – que ela é corretamente aquilo de mais importante no mundo para você. Esse código diz que você deve viver uma vida maravilhosa, cheia de alegria, e fornece uma grande quantidade de orientação sobre como agir assim: como tornar ótima a sua vida; como escolher seus objetivos, organizar seus valores e priorizar as coisas que são importantes para você; como ter sucesso na escola, nas amizades e no romance; como escolher uma carreira que você amará e como ter sucesso nela. E assim por diante. Em suma, o primeiro código moral lhe fornece orientação para realizar uma vida de felicidade e prosperidade.

O segundo código moral oferece um tipo totalmente diferente de orientação. Ele diz que você não deve viver uma vida maravilhosa, que não deve perseguir e realizar seus objetivos e valores – mas, em vez disso, que sua vida é sem importância, que você deve sacrificar seus valores, que deve desistir deles pelo “bem” dos outros, que você deve abandonar a busca da felicidade pessoal e aceitar o tipo de “vida” que resulta ao agir assim. É isso. Essa é a orientação fornecida pelo segundo código.

Tudo mais sendo igual, qual código moral você escolheria – e por quê?

Eu suspeito que, através de séria reflexão, você escolheria o primeiro código. Eu suspeito mais ainda que o seu raciocínio seria algo semelhante a: “Nós estamos falando sobre minha vida aqui. Se é verdade que adotar o primeiro código tornará minha vida maravilhosa, e adotar o segundo código vai torná-la infeliz, então a escolha é óbvia”.

Eu acho que é um bom raciocínio. Vamos ver se isso se mantém à medida que nós nos aprofundemos nas respectivas naturezas e implicações desses dois códigos.

O primeiro código é a moralidade do egoísmo racional de Ayn Rand, que se encontra no coração de A Revolta de Atlas e é a peça central do Objetivismo. O segundo código é a tradicional ética do altruísmo – que é a causa de todos os problemas em A Revolta de Atlas e é a ética sob a qual todos nós fomos criados. A fim de ser claro sobre o que é o egoísmo de Rand, eu quero compará-lo e pô-lo em contraste com o altruísmo. Isso servirá para destacar o valor das ideias de Rand e ajudará a dissipar potenciais más concepções sobre a sua visão. Também demonstrará o quanto o altruísmo é destrutivo e porque nós desesperadamente precisamos substituí-lo pelo egoísmo racional – tanto pessoalmente quanto culturalmente. (Eu usarei os termos “egoísmo” e “egoísmo racional” intercambiavelmente por razões que se tornarão claras à medida que nós prosseguirmos).

Deixem-me enfatizar que eu não posso apresentar toda a moralidade de Rand em apenas uma noite – isso seria impossível. O que vou fazer é apenas indicar a sua essência, pela discussão de alguns dos seus princípios fundamentais. Meu objetivo é mostrar a vocês que há algo extremamente importante aqui – algo importante para as suas vidas e felicidade – e lhes inspirar a pesquisar mais sobre o assunto por própria conta.

Para começar, observem que cada um de vocês trouxe uma moralidade consigo esta noite. Ela está bem aí em sua cabeça – quer você esteja consciente disso ou não. Cada um de vocês tem um conjunto de ideias sobre o que é bom e ruim, certo e errado – sobre o que você deve e não deve fazer. E vocês se referem a essas ideias, implicitamente ou explicitamente, quando fazem escolhas e desempenham ações em suas vidas diárias. Será que devo estudar para prova, ou colar, ou não me preocupar com isso? Qual carreira eu devo escolher – e como eu devo escolhê-la? O ambientalismo é um movimento bom ou ruim? O que eu devo fazer neste final de semana? Como eu devo passar meu tempo? De quem eu devo ser amigo? Em quem eu posso confiar? O homossexualismo é errado? Um feto possui direitos? Qual é o modo correto de lidar com terroristas?

As respostas que damos a tais questões dependem da nossa moralidade. É isto o que é uma moralidade: um conjunto de ideias e princípios para guiar nossas escolhas, avaliações e ações.

Pois enquanto seres humanos nós temos que fazer escolhas – pois nós temos livre arbítrio – uma moralidade de algum tipo é inevitável para nós. A moralidade é realmente inevitável. A nossa única escolha a respeito é se adquirimos nossa moralidade através de deliberação consciente – ou por omissão, através da osmose social.

Se nós adquirirmos nossa moralidade por omissão, nós provavelmente aceitaremos a moralidade dominante na cultura de hoje: o altruísmo – a ideia de que ser moral consiste em ser abnegado. “Não seja egoísta!” – “Ponha os outros em primeiro lugar!” – “É mais abençoado dar do que receber.” – “Não pergunte o que seu país pode fazer por você; pergunte o que você pode fazer pelo seu país” – “Voluntarie-se para servir a sua comunidade” – “Sacrifique-se pelo bem maior”. Assim por diante.

Essa é a moralidade que cercou todos nós enquanto crescíamos – e que ainda nos cerca hoje. É a moralidade ensinada na igreja, na sinagoga e na escola – oferecida em livros, filmes e na TV – e encorajada pela maioria dos pais.

Curiosamente, no entanto, embora nossa cultura esteja imersa nessa moral, o significado real de altruísmo, na mente da maioria das pessoas, é bastante vago. Um médico está sendo altruísta quando cuida de seus pacientes? Ou ele está buscando um ganho com isso? Os pais estão sendo altruístas quando pagam pela educação dos seus filhos? Ou é do seu maior interesse fazer isso? Os soldados americanos estão sendo altruístas quando defendem nossa liberdade? Ou estão defendendo nossa liberdade pelo autointeresse deles? Você está sendo altruísta quando dá uma festa de aniversário para o seu melhor amigo? Ou você faz isso porque ele ou ela é um grande valor para você – e sendo assim, não há algo nisso para você?

Qual é exatamente a diferença entre ação abnegada e ação autointeressada? Qual é a diferença entre altruísmo e egoísmo?

Para entender como cada um se difere do outro, nós precisamos entender a teoria básica de cada código e o que cada um exige na prática. Para esclarecer essa questão, vamos examinar primeiro o altruísmo.

O altruísmo é a moralidade que defende a disposição autossacrificial como o padrão de valor moral e como a única justificação da existência de alguém. Aqui, nas palavras do filósofo altruísta W.G. Maclagen, está o princípio básico: De acordo com o altruísmo, “a importância moral de se estar vivo encontra-se no fato de que isso estabelece a condição para a nossa capacidade de servir a fins que não são redutíveis às nossas satisfações pessoais”. [2] Isso significa que a importância moral da sua vida corresponde aos seus atos de abnegação – atos que não satisfazem suas necessidades pessoais. À medida que você não age abnegadamente, sua vida não tem significação moral. Citando Maclagan novamente, o altruísmo sustenta que nós temos “o dever de aliviar as aflições e promover a felicidade de nossos semelhantes… [Nós] devemos ignorar totalmente o [nosso] próprio prazer ou felicidade enquanto tais ao… decidirmos qual curso de ação perseguir… A [nossa] própria felicidade é, em si, de nenhuma importância moral para [nós] qualquer que seja”. [3]

Ayn Rand não estava exagerando quando disse, “O princípio básico do altruísmo é que o homem não tem o direito de existir para o seu próprio benefício, que servir aos outros é a única justificação da sua existência, e que o autossacrifício é o seu maior dever, virtude e valor morais”. [4] Esse é o significado teórico do altruísmo. E os filósofos altruístas sabem disso – e afirmam isso expressamente. (Nós vamos ouvir mais deles um pouco depois,)

Agora, o que significa o altruísmo na prática? Suponha que uma pessoa aceite o altruísmo como verdadeiro e se esforça para praticá-lo consistentemente. O que será da sua vida?

Em livro de filosofia universitário amplamente utilizado nos dá um bom indício. Enquanto eu leio esta passagem, mantenham em mente que não se trata de alguém falando a favor ou contra o altruísmo. Isto é apenas a descrição do escritor da obra do que o altruísmo significa na prática.

“Uma pessoa puramente altruísta não considera o seu próprio bem estar de maneira alguma apenas o dos outros. Se ela tem de escolher entre uma ação que produziria um grande benefício para si mesma (tal como habilitá-la a entrar na faculdade) e uma ação que produziria nenhum benefício para si mesma, mas um pequeno benefício para alguém mais (tal como conseguir que a outra vá a um concerto esta noite), ela deve escolher a segunda. Ela deve ser abnegada, absolutamente não considerar a si mesma: ela deve encarar a morte em vez de sujeitar outra pessoa ao menor desconforto. Ela está comprometida apenas em servir aos outros e a deixar passar qualquer benefício para si mesma.” [5]

Isso ilustra o significado prático do altruísmo – e indica porque ninguém o pratica consistentemente.

Observe, entretanto, que seja praticado de forma consistente ou inconsistente, o princípio básico do altruísmo continua o mesmo: A única justificação moral da sua existência é o serviço autossacrificial para os outros. Que algumas pessoas subscrevam ao altruísmo mas falhem em promovê-lo consistentemente não torna o seu código moral de uma espécie diferente daquele de uma pessoa que o pratica consistentemente; a diferença é apenas de grau. O altruísta consistente está agindo com uma forma bizarra de “integridade” – o tipo de integridade que leva ao seu sofrimento e morte. O altruísta inconsistente está agindo com típica hipocrisia – embora uma hipocrisia necessária dado o seu código moral.

E não apenas a moralidade do altruísta é a mesma em espécie; as consequências de aceitá-la são as mesmas em espécie, também. À medida que uma pessoa age de forma abnegada, ela prejudica assim sua vida e felicidade. Ela pode não morrer por causa disso, mas ela certamente não viverá plenamente; ela não conseguirá obter o máximo da sua vida; ela não realizará o tipo de felicidade que lhe seria possível.

Você aceitou o princípio do altruísmo? Se sim, como isso está afetando a sua vida?

Você já fez algo para o bem dos outros – ao custo do que você realmente pensava que era o melhor para sua própria vida? Por exemplo: Você já aceitou um convite para jantar com alguém de cuja companhia você não gostava – porque você não queria ferir os sentimentos dele ou dela? Você já deixou de ir a um evento – tal como esquiar ou um fim de semana na praia com os seus amigos – a fim de passar tempo com membros da família que você realmente prefiriria não ver? Vocâ já manteve um relacionamento que você sabe que não é do seu maior interesse – porque você imaginava que ele ou ela não conseguiria lidar com o término?

Por outro lado, você já se sentiu culpado por não se sacrificar para os outros? Você já se sentiu envergonhado por fazer algo que era do seu próprio interesse? Por exemplo, você já se sentiu culpado por não dar esmola a um mendigo na esquina de uma rua? Ou culpado por perseguir um diploma no campo, ou na arte ou em algo que você ama – ao invés de fazer algo considerado “nobre”, tal como se alistar ao Corpo de Paz?

Essas são apenas algumas das consequências de aceitar a moralidade do altruísmo.

O altruísmo não é bom para a sua vida: Se você praticá-lo consistentemente, ele leva à morte. Isso foi o que Jesus fez. Se você aceitá-lo e praticá-lo inconsistentemente, ele atrasa a sua vida e leva à culpa. Isso é o que a maioria dos altruístas faz.

O egoísmo racional, como o nome sugere, e como veremos, é bom para a sua vida. Ele diz que você deve perseguir os valores que servem à sua vida e que você não deve se sacrificar para o bem dos outros. Praticado de forma consistente, ele leva a uma vida de felicidade. Praticada inconsistentemente – bem, por que ser inconsistente aqui? Por que não viver uma vida de felicidade? Por que se sacrificar? Que razão há para fazer isso? (Iremos abordar a profunda falta de resposta a essa questão mais tarde.)

Neste ponto, podemos começar a entender por que Rand chamava o altruísmo de “A Moralidade da Morte”. Para compreender plenamente por que ele é a moralidade da morte, no entanto, devemos entender que a essência do altruísmo não é “servir aos outros”, mas o autossacrifício. Então eu quero reiterar esse ponto com ênfase.

O altruísmo não conclama meramente a “servir aos outros”; ele conclama a se sacrificar servindo aos outros. Caso contrário, Michael Dell teria que ser considerado mais altruísta do que Madre Teresa. Por quê? Porque Michael Dell serve milhões de pessoas a mais do que Madre Teresa jamais serviu.

Há uma diferença, é claro, na modo que ele serve as pessoas. Ao passo que Madre Teresa “servia” as pessoas através da troca de seu tempo e esforço por nada, Michael Dell serve as pessoas comerciando com elas – através da troca de valor por valor para vantagem mútua – um troca em que ambos os lados ganham.

Intercambiar valor por valor não é a mesma coisa que abrir mão de valores em troca de nada. Há uma clara diferença entre perseguir valores e desistir deles – entre conquistar valores e abandoná-los – entre trocar um valor menor por um maior – e vice-versa.

Em um esforço para fazer seu credo parecer mais palatável, defensores do altruísmo tentarão turvar essa distinção em sua mente. É importante não deixá-los conseguir fazer isso. Não seja enganado!

Altruístas afirmam, por exemplo, que os pais se “sacrificam” quando eles pagam para os seus filhos frequentar a faculdade. Mas isso é ridículo: Presumivelmente, os pais valorizam a educação dos seus filhos mais do que eles valorizam o dinheiro que eles gastam com ela. Sendo assim, sacrifício seria então se eles renunciassem à educação dos seus filhos e gastassem o dinheiro com um valor menor – tal como uma Ferrari.

Altruístas também afirmam que o amor romântico exige “sacrifícios”. Mas isso é ridículo também: “Amor, eu realmente prefiria estar com outra mulher, mas eu estou aqui de forma autossacrificial gastando o meu tempo com você”. Ou: “Eu realmente preferia ter gasto esse dinheiro em um novo conjunto de tacos de golfe, mas em vez disso de forma autossacrificial comprei este colar para o seu aniversário”. Ou “É o nosso aniversário – por isso eu estou preparando o seu prato favorito para um jantar à luz de velas – mesmo se eu preferia estar jogando poker com os amigos.”

Isso é amor? Só se o amor for sacrificial.

Altruístas também afirmam que os soldados americanos se sacrificam ao servir as forças armadas. Realmente não. Nossos soldados voluntários servem a uma série de razões do próprio interesse deles. Aqui vão três: (1) Eles servem à mesma razão pela qual os fundadores da América formaram este país – pois eles valorizam a liberdade – eles percebem que a liberdade é um requerimento da vida humana, que é a razão pela qual Patrick Henry terminou seu famoso discurso com “Dê-me a liberdade ou dê-me a Morte!” Isso não foi uma ode ao sacrifício; foi uma ode à vida, à liberdade e à busca da felicidade. (2) Nossos soldados servem em troca de pagamento e educação – que são claramente do seu próprio interesse. (3) Eles servem porque são fascinados pela ciência militar e querem fazer uma carreira nela – outro motivo egoísta.

Alguns desses soldados morrem em batalha? Infelizmente, sim. O trabalho deles é perigoso. Mas soldados Americanos não desistem voluntariamente de suas vidas: Eles não andam pelo campo de batalha dizendo “Atirem em mim”! Nem amarram bombas aos seus corpos e explodem a si mesmos em campos inimigos. Pelo contrário, eles fazem tudo que podem fazer para vencer o inimigo, ganhar a guerra, e permanecer vivos, mesmo quando os governos Bush e Obama amarram as suas mãos com restrições altruístas sobre como eles devem lutar.

O ponto é que um sacrifício não é “qualquer escolha ou ação que impede alguma outra escolha ou ação”. Um sacrifício não é uma “troca qualquer”. Um sacrifício é, como Rand afirmou, “o abandono de um valor maior em prol de um valor menor ou de um não valor”. [6]

Se alguém está cometendo um sacrifício ou não depende do que é mais importante e do que é menos importante para a sua vida. A fim de fazer essa determinação, naturalmente, é preciso saber a importância relativa dos seus valores em relação à própria vida. Mas se alguém realmente estabelecer essa hierarquia, esse alguém poderá agir de forma não sacrificial – e de maneira consistente.

Por exemplo, se você sabe que a sua educação é mais importante para sua vida do que é, digamos, uma noite de diversão com seus amigos, então se você ficar em casa a fim de estudar para uma prova crucial – em vez de sair com seus amigos – isso não é um sacrifício. Sacrifício seria sair para se divertir e ir mal na prova.

A vida requer que nós constantemente abandonemos valores menores em prol de outros maiores. Mas estes são ganhos, não sacrifícios. Um sacrifício consiste em desistir de algo que é mais importante em prol de algo que é menos importante; o que resulta, assim, em uma perda líquida.

O altruísmo, a moralidade do autossacrifício, é a moralidade da perda pessoal – ela não permite o ganho pessoal. Isso não é uma caricatura do altruísmo; é a essência da moralidade. Como o arquialtruísta Peter Singer (o famoso filósofo utilitarista da Universidade de Princeton) explica, “à medida que [as pessoas] são motivadas pelo prospecto de obter uma recompensa ou evitar uma punição, eles não estão agindo de forma altruísta…” [7] O arquialtruísta Thomas Nagel (um professor de filosofia da Universidade de Nova York) concorda: O altruísmo implica em “uma disposição de agir em consideração aos interesses das outras pessoas, sem a necessidade de motivos ulteriores” – “motivos ulteriores” significando, é claro, ganhos pessoais. [8]

A fim de entender a diferença entre ação egoista e ação altruísta, nós devemos compreender a diferença entre uma troca e um sacrifício – entre um ganho e uma perda – e nós não devemos permitir que altruístas turvem essa distinção em nossa mente. O egoísmo, como nós veremos, clama por ganhos pessoais. O altruísmo, como vimos, clama por perdas pessoais.

Agora, a despeito da sua natureza destrutiva, o altruísmo é aceito em alguma medida por quase todas as pessoas hoje. Obviamente, ninguém o pratica consistentemente – pelo menos não por muito tempo. Em vez disso, a maioria das pessoas aceita-o como verdadeiro – para traí-lo em seguida.

[Em breve a Parte II]

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Sobre o autor: Craig Biddle é editor de The Objective Standard e autor de Loving Life: The Morality of Self-Interest and the Facts that Support It, uma introdução sistemática e altamente concretizada à ética de Ayn Rand. Sua próxima obra, Thinking in Principles: The Science of Selfishness, é sobre como utilizar a mente da forma mais efetiva a serviço da própria vida,  liberdade e felicidade. Além de escrever, ele é palestrante e apresenta seminários sobre questões éticas e epistemológicas a partir de uma perspectiva Objetivista. Biddle apresentou seminários em universidades pelos Estados Unidos , incluindo Stanford, Duke, Tufts, UVA, UCLA, e NYU. O seu website é www.CraigBiddle.com.

Link para o original: https://www.theobjectivestandard.com/issues/2012-summer/atlas-shrugged-ayn-rand-morality-egoism/

Obs: O texto original está protegido por direitos autorais. A sua tradução e publicação nesta página foi expressamente permitida pelo autor.

Notas

[1] Ayn Rand, Journals of Ayn Rand, editado por David Harriman (New York: Dutton, 1997), p. 610.

[2] W. G. Maclagan, “Self and Others: A Defense of Altruism,” The Philosophical Quarterly, vol. 4, nº 15 (Abril 1954): p. 122. Maclagan foi um filósofo escocês do início do século XX que ensinava na Universidade de Glasgow e era um defensor ardente do altruísmo.

[3] Maclagan, “Self and Others,” pp. 109 ? 11.

[4] Ayn Rand, Philosophy: Who Needs It (New York: Penguin, 1984), p. 61.

[5] John Hospers, Philosophical Analysis (Upper Saddle River, NJ: Prentice-Hall, 1997), p. 259.

[6] Ayn Rand, The Virtue of Selfishness (New York: Signet, 1962), p. 50.

[7] Peter Singer, A Darwinian Left (New Haven, CT: Yale University Press, 1999), p. 56.

[8] Thomas Nagel, The Possibility of Altruism (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1978), p. 79.

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A Beleza da Ética de Ayn Rand

Por Craig Biddle

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Ayn Rand era contra à moral do autossacrificio, a qual é inerente a muitos sistemas filosóficos e a todas as religiões. Ao invés disso, ela defendia uma moralidade do autointeresse – a ética Objetivista – a qual, como ela explica em seu ensaio “Causality Versus Duty” (Causalidade Contra o Dever), é aptamente resumida pelo provérbio espanhol “Deus disse: Pegue o que você quiser e pague por isso”.

Rand era ateia, então seu uso de “Deus” aqui é metafórico. Por ‘Deus disse’ ela quer dizer “a realidade dita”; ela está se referindo à imutabilidade do fato de que se você quer alcançar um efeito (um fim), você deve ordenar suas causas, os meios. Esta é a lei da causalidade aplicada aos valores humanos. Nossos valores – quer seja uma maravilhosa carreira, um relacionamento romântico, boas amizades, hobbies que enriquecem a vida ou liberdade política – não nos vêm automaticamente, nem os perseguimos automaticamente. Se nós queremos essas coisas, devemos escolher agir por certos modos e não por outros. Este é o modo que a realidade é. Este princípio é absoluto. “Deus disse”.

“Pegue o que você quiser” refere-se ao fato de que os valores humanos são escolhidos. O reino dos valores humanos – o reino da moralidade – é o reino da escolha. Uma moralidade apropriada não é sobre mandamentos divinos (não há deus) ou imperativos categóricos (não há tal coisa) ou deveres (eles não existem). Em vez disso, é sobre o que você quer da vida e o que você deve fazer para conseguir o que você quer.  Uma moralidade apropriada é um conjunto de princípios para guiar suas escolhas e ações em direção a uma vida de felicidade.

É importante notar, tal como enfatizado por Rand, que isso não torna a moral subjetiva. O que promove a vida de uma pessoa é ditado não pelos seus sentimentos divorciados dos fatos, mas pelos requisitos factuais de sua vida e felicidade – dada a sua natureza humana. Assim como um coelho não pode viver e prosperar pulando de penhascos, e assim como uma águia não pode viver e prosperar cavando túneis, então uma pessoa não pode viver e prosperar agindo contrariamente aos requisitos da sua vida.

Nós somos seres complexos de corpo e mente, matéria e espírito, e os requisitos de nossa vida e felicidade derivam de ambos os aspectos desse conjunto integrado. Se nós queremos saber quais requisitos são esses, devemos identificar os fatos relevantes. Dada nossa natureza, nós precisamos de valores específicos para viver e prosperar. Nós precisamos de valores materiais tais como comida, roupas, abrigo e remédios; precisamos de valores espirituais, tais como amor próprio, autoconfiança, amizades e amor romântico; e precisamos de valores políticos, tais como o estado de direito e a liberdade política – os quais nos permitem perseguir nossos valores materiais e espirituais. Consequentemente, a fim de viver e prosperar, nós devemos apoiar e empregar o valor fundamental que torna possível a nossa identificação e busca de todos os nossos outros valores: a razão.

A razão é nosso meio de observar a realidade, formar conceitos, identificar relacionamentos causais, evitar contradições e formar princípios sobre o que é bom e ruim para nossa vida. A razão é nosso único meio de conhecimento e nosso meio básico de viver. Assim, se nosso objetivo é uma vida de felicidade, nós devemos ter a razão como um absoluto; nós devemos ser racionais como uma questão de princípio.

Ser racional não significa nunca errar; humanos são seres falíveis, e erros ocasionais fazem parte da vida. Nem significa reprimir ou ignorar nossos próprios sentimentos; o que não seria racional, pois sentimentos são tipos cruciais de fatos. Pelo contrário, ser racional significa comprometer-se, como uma questão de princípio, a identificar os fatos disponíveis e relevantes em relação às alternativas apresentadas na vida, a agir de acordo com seu o melhor julgamento dado aquilo que se sabe em determinado momento e a corrigir quaisquer erros cometidos se e quando forem descobertos.

Sendo assim, “pegue o que você quiser” não significa “siga suas emoções sem respeitar os fatos e a lógica”. Significa use seu julgamento racional para descobrir quais objetivos e cursos de ação resultarão em uma vida de felicidade e aja de acordo com isso. Significa “pegue o que você racionalmente quiser”.

“Pague por isso” refere-se ao fato de que se nós queremos realizar nossos objetivos, devemos trabalhar para realizá-los, devemos decretar suas causas. Assim diz a lei da causalidade. Isso não é um fardo, mas uma benção: escolher valores e trabalhar para realizá-los – seja uma carreira em programação de computadores, um relacionamento amoroso com a garota ou o cara dos seus sonhos, uma viagem de barco ao redor do mundo ou uma casa de veraneio em Catskills – não é um processo a ser lamentado. É parte e característica de viver uma vida maravilhosa.

Uma moralidade apropriada é uma ferramenta crucial para viver e amar a vida, e a ética Objetivista é exatamente tal moralidade. Seus valores de razão, propósito e autoestima – junto com as suas virtudes de racionalidade, produtividade, honestidade, integridade, independência, justiça e orgulho – estão, em conjunto, a serviço desse fim. Eles são nossos meios de pegar o que nós queremos e pagar por isso.

Essa é a beleza da ética Objetivista.

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Link para o original : https://www.theobjectivestandard.com/2010/12/the-beauty-of-ayn-rands-ethics/

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